Mateus usa as palavras de Jeremias porque vê, na morte das crianças de Belém, uma dor parecida com a que o profeta havia descrito séculos antes. Mas isso não significa que Jeremias tenha anunciado diretamente a ordem de Herodes. Pra entender a ligação, precisamos olhar primeiro para o que estava acontecendo no tempo de Jeremias.
Jeremias falou de Raquel chorando por seus filhos num período em que o povo de Judá sofria com a conquista da Babilônia e com a deportação de muitos dos seus habitantes. Raquel havia sido esposa de Jacó e mãe de José e Benjamim; por isso, o profeta a apresenta como uma mãe chorando pelos descendentes de Israel. Ramá aparece em Jeremias como um lugar ligado à reunião dos prisioneiros que seriam levados para a Babilônia (Jeremias 31:15; 40:1). O choro representa a perda e a separação vividas pelo povo. O texto não diz que aquela profecia tratava de um massacre de crianças em Ramá.
Anos depois, quando Jesus nasceu, Herodes soube que os visitantes vindos do Oriente procuravam aquele que havia nascido para ser rei dos judeus. Com medo de perder seu poder, mandou matar os meninos de até dois anos em Belém e nos arredores. Jesus não morreu nesse ataque: José, avisado em sonho, já tinha levado a família para o Egito (Mateus 2:1-18).
É nesse ponto que Mateus cita Jeremias. Mais uma vez, mães do povo de Israel choravam por filhos que lhes tinham sido tirados. Raquel representa esse sofrimento. O cumprimento está nessa nova ocorrência de uma dor que Jeremias já havia retratado, agora dentro da história da chegada do Messias. Não precisamos entender que o choro veio literalmente da cidade de Ramá, nem que Jeremias estava identificando Herodes com séculos de antecedência.
Há ainda uma parte importante da passagem que Mateus não cita. Logo depois de falar do choro de Raquel, Jeremias anuncia que Deus não abandonou seu povo e lhe dá esperança de um futuro (Jeremias 31:16-17). Isso não diminui a dor das famílias de Belém, e Mateus não diz que Jesus impediu aquela tragédia. Mas ajuda a entender por que ele inclui essa passagem no relato: o Messias chegou a um povo que conhecia profundamente a perda e o sofrimento. A violência de Herodes não impediu que Jesus vivesse e cumprisse a missão pra qual tinha vindo.
Assim, Mateus mostra que a história de Jesus não está separada da história de Israel. O antigo choro reaparece no tempo do seu nascimento; e, mesmo em meio a esse sofrimento real, a esperança prometida por Deus não foi perdida.