Essa frase não quer dizer que seres humanos sejam deuses. No Salmo 82, Deus chama alguns de “deuses” e, logo em seguida, diz que eles morrerão. O salmo não está ensinando que eles têm a natureza de Deus. Está mostrando que, por mais elevada que seja a posição deles, continuam sujeitos ao julgamento dele.
O assunto do salmo é a injustiça. Deus confronta aqueles que deveriam defender os fracos e fazer o que é justo, mas favoreciam os perversos (Salmo 82:2-4). Por isso, uma interpretação comum é que os “deuses” sejam juízes ou governantes humanos: pessoas que exerciam autoridade, mas estavam usando essa autoridade de maneira errada. O próprio salmo termina pedindo que Deus julgue a terra (Salmo 82:8). Ninguém ali está acima dele.
Há também cristãos que entendem que o salmo se dirige a seres celestiais encarregados de alguma forma de governo. Essa leitura se apoia, entre outras coisas, na cena inicial, em que Deus aparece julgando entre “deuses” (Salmo 82:1). O texto é discutido, então não é bom apresentar a identidade deles como uma certeza absoluta. Mas as duas leituras concordam no ponto principal: somente Deus é o juiz supremo; aqueles a quem ele confronta não são iguais a ele.
E por que Jesus cita essa frase? Em João 10, algumas pessoas querem apedrejá-lo porque entendem que suas palavras sobre sua relação com o Pai são uma blasfêmia: para elas, Jesus, sendo homem, estava se fazendo Deus (João 10:30-33). Jesus então chama a atenção delas para a própria Escritura. Se o Salmo 82 usa o termo “deuses” para outros, não basta ouvir Jesus dizer que é Filho de Deus e concluir, sem examinar mais nada, que ele blasfemou (João 10:34-36).
Jesus não está dizendo que é apenas mais um daqueles chamados “deuses”. Seu argumento continua: ele fala daquele que o Pai separou e enviou ao mundo e pede que observem suas obras. Essas obras, diz ele, mostram sua relação única com o Pai (João 10:36-38). A citação do salmo responde à acusação que fizeram contra ele; não reduz Jesus a um simples governante humano.
Portanto, “vós sois deuses” não é uma promessa de que podemos nos tornar divinos nem uma autorização pra nos chamar de “pequenos deuses”. No Salmo 82, a expressão aparece junto de uma advertência contra a injustiça e da certeza de que Deus julgará. Em João 10, Jesus usa essa passagem pra mostrar que seus acusadores precisavam considerar com cuidado as Escrituras e as obras dele antes de condenar sua afirmação de ser o Filho de Deus.