Essa é a pergunta por trás da expressão voluntarismo doxástico. O nome é complicado, mas a ideia é simples: até que ponto acreditar em alguma coisa depende da nossa vontade?
Há uma diferença importante entre escolher acreditar e escolher o que fazer com uma dúvida. Imagine que alguém lhe mostre uma afirmação que você considera falsa. Você pode dizer “vou acreditar nisso”, mas essa decisão, por si só, não faz a afirmação parecer verdadeira pra você. A convicção não costuma surgir por uma ordem que damos à nossa mente. Essa ideia de escolher uma crença na mesma hora é chamada de *voluntarismo doxástico direto*.
Por outro lado, você pode decidir investigar a afirmação. Pode ouvir os argumentos, conferir os fatos, fazer perguntas ou até evitar tudo isso. Essas escolhas não garantem que você chegará a determinada conclusão, mas podem influenciar o que acabará acreditando. É isso que se chama de *voluntarismo doxástico indireto*: não escolhemos necessariamente a conclusão, mas podemos escolher como lidamos com o que nos é apresentado.
A Bíblia não usa esses nomes nem apresenta uma teoria filosófica sobre como as crenças se formam. Mas ela trata as pessoas como responsáveis pela maneira como respondem à verdade. Os bereanos, por exemplo, examinaram as Escrituras pra conferir o que Paulo ensinava, e são elogiados por isso (Atos 17:11). Jesus também falou com pessoas que estudavam as Escrituras, mas não queriam ir a ele para receber vida (João 5:39-40). Nesse caso, o problema não era simplesmente falta de informação.
Isso não significa que alguém consiga produzir fé em Deus apenas por esforço próprio. Jesus ensinou que ninguém vai a ele sem a ação do Pai (João 6:44). Cristãos entendem de maneiras diferentes como essa ação de Deus se relaciona com a resposta humana. Ainda assim, não precisamos resolver toda essa discussão pra entender o ponto principal: a Bíblia nos chama a buscar e acolher a verdade, sem dizer que podemos nos convencer de qualquer coisa quando quisermos.
Também é bom distinguir *achar que algo é verdade* de *confiar em Deus*. Tiago diz que até os demônios creem que Deus existe (Tiago 2:19). Portanto, aceitar mentalmente um fato sobre Deus não é o mesmo que confiar nele. O voluntarismo doxástico fala, principalmente, de como passamos a considerar uma afirmação verdadeira; a fé apresentada na Bíblia envolve também confiança.
Então, a resposta curta é: não parece que podemos simplesmente escolher, de modo imediato, aquilo em que acreditamos. Mas nossas escolhas sobre investigar, ouvir ou evitar uma questão podem influenciar nossas crenças. Essa distinção ajuda a entender por que a Bíblia leva a sério tanto a nossa responsabilidade diante da verdade quanto a nossa necessidade da ação de Deus.