Moisés mandou poupar as meninas e jovens midianitas que não tinham tido relações sexuais, enquanto ordenou a morte das mulheres que já tinham tido. A razão que ele dá está ligada a um episódio anterior: mulheres midianitas haviam participado de uma ação que levou israelitas à idolatria. Mas é importante dizer logo o que o texto não explica: ele não conta qual foi o destino de cada menina poupada, nem permite afirmar que todas foram acolhidas como filhas ou esposas.
Tudo começou quando Israel estava acampado perto de Moabe. Homens israelitas se envolveram com mulheres daquela região e passaram a participar dos sacrifícios oferecidos aos deuses delas. Israel acabou adorando Baal-Peor, e o episódio trouxe um julgamento severo sobre o povo (Números 25:1-9). O relato menciona mulheres moabitas e também identifica uma mulher midianita envolvida no caso (Números 25:6-18). Mais tarde, Moisés diz que mulheres midianitas haviam seguido o conselho de Balaão e levado os israelitas a pecar naquele episódio (Números 31:15-16).
É por isso que, quando os soldados voltaram da batalha trazendo as mulheres midianitas como prisioneiras, Moisés reagiu. Segundo sua explicação, eles haviam poupado justamente mulheres ligadas ao pecado que motivara a guerra. Então ele ordenou que matassem as que já tinham tido relações sexuais e deixassem viver as meninas e jovens que não tinham tido (Números 31:14-18).
Isso esclarece a distinção que Moisés fez, mas não resolve todas as dificuldades da passagem. O texto não prova que toda mulher adulta capturada tivesse participado pessoalmente do episódio de Baal-Peor. Tampouco a virgindade prova, por si só, que cada menina poupada era inocente de qualquer pecado. A conclusão mais cuidadosa é que Moisés usou essa distinção dentro do contexto daquela guerra; não devemos transformá-la numa explicação individual sobre a culpa de cada prisioneira.
E o que significa “deixem viver para vocês”? O restante do capítulo mostra que as sobreviventes foram contadas entre os cativos e distribuídas entre os combatentes e o restante de Israel; parte delas foi destinada ao serviço ligado ao tabernáculo (Números 31:25-47). A expressão indica que elas ficariam sob o domínio dos israelitas. Não é uma ordem explícita para estuprá-las, mas também seria errado dizer que a passagem descreve uma adoção bondosa ou uma vida segura pra todas elas. Números 31 simplesmente não conta o que aconteceu depois com cada uma.
A lei de Deuteronômio 21:10-14 ajuda a entender que um israelita não tinha permissão para tratar livremente uma prisioneira de guerra como objeto sexual. Se quisesse tomá-la como esposa, havia regras a cumprir; se depois não a quisesse mais, não poderia vendê-la. Essa lei, porém, não diz que todas as midianitas poupadas se casaram, nem apaga a violência da situação em que foram capturadas.
Portanto, Moisés mandou poupá-las porque as distinguiu das mulheres que, segundo ele, estavam ligadas ao pecado de Baal-Peor. Elas sobreviveram e passaram a fazer parte dos cativos de Israel. Essa é a resposta que o texto permite dar. A passagem continua sendo dura — especialmente pela morte das crianças do sexo masculino e pela condição das meninas sobreviventes. Entender o motivo apresentado por Moisés não exige fingir que sabemos tudo sobre o destino delas, nem tratar o sofrimento descrito ali como algo pequeno.