Não. A expressão “versículos satânicos” não se refere a nenhum trecho da Bíblia. Ela é usada pra falar de uma história antiga sobre Maomé e a recitação do Alcorão.
Segundo essa história, Maomé teria recitado palavras que elogiavam três divindades veneradas por árabes de sua época: al-Lat, al-Uzza e Manat. Mais tarde, teria dito que aquelas palavras não vinham de Deus, mas de uma interferência de Satanás. É por isso que elas passaram a ser chamadas de “versículos satânicos”.
Há uma distinção importante: essas palavras de elogio não fazem parte do Alcorão atual. A sura 53 menciona as três divindades nos versículos 19 e 20, mas, em seguida, questiona a crença nelas. Portanto, não é correto dizer que os atuais versículos 21 e 22 ensinam que essas divindades podem interceder pelas pessoas.
Alguns relatos muçulmanos antigos, entre eles um registrado pelo historiador al-Tabari, contam o episódio da recitação e da posterior correção. Mas a história é discutida. Muitos estudiosos e muçulmanos rejeitam que ela tenha acontecido dessa forma e questionam a confiabilidade dos relatos. Assim, não dá pra apresentá-la como um fato histórico comprovado. O Alcorão 22:52 também aparece nessa discussão, mas há divergências sobre sua relação com o episódio.
Do ponto de vista bíblico, a dúvida por trás do assunto é importante: *como saber se uma mensagem atribuída a Deus realmente vem dele?* A Bíblia orienta as pessoas a não aceitarem uma mensagem apenas porque alguém afirma falar em nome de Deus. Ela deve ser examinada, especialmente quando leva à adoração de outros deuses (Deuteronômio 13:1-3; 1 João 4:1).
Então, a resposta simples é esta: os “versículos satânicos” não são versículos bíblicos nem fazem parte do texto atual do Alcorão. O nome se refere a palavras presentes em relatos antigos e contestados sobre Maomé. A expressão também ficou conhecida por ser o título do romance *Os Versos Satânicos*, de Salman Rushdie.