Quando você compara duas Bíblias e vê que uma passa do versículo 3 direto pro 5, é natural perguntar: “Tiraram alguma coisa daqui?” Na maioria desses casos, a diferença não está numa tentativa de mudar a Bíblia. Ela existe porque os tradutores estão tentando responder a uma pergunta anterior à tradução: o que o autor bíblico escreveu originalmente?
Os livros do Novo Testamento foram escritos à mão e depois copiados muitas vezes, também à mão. Os escritos originais não chegaram até nós, mas existem numerosas cópias antigas. Elas concordam amplamente entre si, embora apresentem diferenças em alguns trechos. Às vezes um copista pulava uma palavra; em outras ocasiões, uma explicação feita pra ajudar o leitor acabava entrando em cópias posteriores como se fizesse parte do texto.
Traduções mais antigas, como a Almeida Revista e Corrigida, usaram um conjunto de textos gregos que incluía algumas dessas passagens. Mais tarde, os estudiosos puderam comparar um número maior de manuscritos, inclusive cópias mais antigas que muitas das usadas antes. Quando um trecho não aparece em testemunhos antigos importantes, mas surge em cópias posteriores, há motivo pra perguntar se ele foi acrescentado durante a transmissão do texto. Isso não quer dizer que a cópia mais antiga sempre esteja certa: os estudiosos também examinam como os manuscritos se relacionam e qual explicação faz mais sentido pra diferença.
João 5:4 ajuda a entender o que está em jogo. Em João 5:7, um homem enfermo fala da água do tanque se agitando e diz que não tem quem o ajude a entrar nela. Algumas cópias trazem antes uma explicação: um anjo agitava a água, e a primeira pessoa que entrasse era curada. Essa explicação não consta em diversos manuscritos antigos. Por isso, muitas traduções atuais não a colocam no texto principal, mas a mostram numa nota. É possível que tenha começado como uma explicação acrescentada por um copista; não dá pra afirmar com certeza exatamente como isso aconteceu.
Os casos não são todos iguais. Em Atos 8:37, algumas Bíblias trazem uma declaração de fé do homem que Filipe batizou; muitas traduções recentes a registram apenas em nota, por não aparecer em importantes manuscritos antigos. Em 1 João 5:7, a discussão costuma ser sobre uma frase adicional, não sobre o versículo inteiro. Já Marcos 16:9–20 é uma passagem maior e mais discutida: várias traduções a mantêm, mas avisam que ela não aparece em alguns dos manuscritos mais antigos. Assim, não seria correto tratar todos esses exemplos como se tivessem exatamente o mesmo grau de dúvida.
E por que a numeração às vezes pula um versículo? Porque os números dos versículos foram acrescentados muitos séculos depois dos livros bíblicos. A tradução pode manter a numeração conhecida pra facilitar a comparação entre Bíblias, mesmo quando apresenta o texto discutido só numa nota.
Então, traduções recentes estão “retirando versículos”? Essa não é uma boa maneira de descrever o que fazem. Elas procuram distinguir o que provavelmente fazia parte do escrito original daquilo que pode ter entrado nas cópias depois. Também não é justo dizer que os tradutores antigos inventaram esses trechos: eles traduziram os textos que tinham diante de si.
Essa pesquisa não elimina os ensinamentos centrais da fé cristã. A morte e a ressurreição de Jesus, por exemplo, são ensinadas em muitas passagens cuja leitura não depende desses trechos discutidos. O objetivo de comparar manuscritos é justamente tratar a Bíblia com cuidado, sem esconder do leitor onde existem dúvidas sobre a forma original de uma passagem.