Utraquismo é o nome dado à defesa de que todos os cristãos, e não apenas os sacerdotes, recebam o pão e o vinho na Ceia do Senhor. Um utraquista era quem defendia essa prática. O nome vem de uma expressão latina que significa “sob as duas espécies”: o pão e o vinho. Por causa do cálice, os utraquistas também ficaram conhecidos como *calixtinos*.
Pra entender por que isso virou uma questão tão importante, é preciso voltar à Boêmia, região que hoje faz parte da República Tcheca. No início do século XV, era comum na Igreja Católica daquela região oferecer aos fiéis apenas o pão na comunhão; o sacerdote recebia também o vinho. Alguns cristãos passaram a contestar essa diferença. Eles apontavam pra maneira como Jesus instituiu a Ceia, dando pão e cálice aos discípulos (Mateus 26:26-28), e pra descrição que Paulo faz da igreja participando de ambos (1 Coríntios 11:23-28).
Essa defesa se desenvolveu entre os seguidores do movimento ligado a Jan Hus, que criticava práticas da igreja e foi executado em 1415. Mas é bom não confundir as coisas: o utraquismo tratava, em primeiro lugar, da participação dos fiéis no cálice. Nem todo utraquista concordava com todas as críticas feitas por Hus. Depois, o movimento também passou a ter grande importância na vida religiosa e política da Boêmia.
Do ponto de vista bíblico, há uma razão clara pra valorizar a participação de toda a igreja no pão e no cálice: os dois fazem parte da Ceia que Jesus instituiu. Ao mesmo tempo, é importante distinguir essa questão da explicação católica sobre o que acontece com o pão e o vinho. A Igreja Católica ensina que Cristo é recebido por inteiro mesmo quando a pessoa comunga apenas o pão. Hoje, ela também permite que os fiéis recebam o pão e o vinho em determinadas circunstâncias. Portanto, não seria correto dizer que os católicos nunca podem receber o cálice.
Em resumo, utraquista é o nome histórico dado a quem defendia que os fiéis recebessem os dois elementos da comunhão. Muitas igrejas protestantes fazem isso hoje, embora normalmente não usem o nome “utraquista” pra se descrever.