Mateus diz que Jesus curou dois cegos. Marcos e Lucas contam a cura de um deles. Isso não precisa ser uma contradição: dizer que um cego foi curado não é o mesmo que dizer que *só* havia um. Marcos até dá o nome do homem em quem concentra o relato: Bartimeu (Marcos 10:46). Mateus, por sua vez, menciona os dois (Mateus 20:30).
Há, porém, outra diferença que merece atenção. Mateus e Marcos situam a cura quando Jesus saía de Jericó; Lucas a situa quando ele se aproximava da cidade (Mateus 20:29; Marcos 10:46; Lucas 18:35). Os relatos têm muitos detalhes em comum: o pedido de ajuda à beira da estrada, o título “Filho de Davi”, a tentativa da multidão de calar o cego, a resposta de Jesus e o homem curado seguindo-o. Por isso, é natural entender que os três estão contando o mesmo acontecimento. Ainda assim, a diferença entre “chegar” e “sair” não desaparece só porque as histórias se parecem.
Uma explicação possível é que havia, naquela região, a área da Jericó antiga e um núcleo habitado mais recente. Assim, alguém poderia descrever o percurso como uma saída de Jericó, pensando numa dessas áreas, e outro como uma aproximação de Jericó, pensando na outra. Mas os evangelhos não dizem que foi isso que aconteceu. A explicação ajuda a mostrar como as descrições poderiam se encaixar; não permite afirmar com certeza o ponto exato da estrada onde ocorreu a cura.
Então, a resposta mais cuidadosa é esta: segundo Mateus, Jesus curou dois cegos; Marcos e Lucas destacam um deles. Quanto ao lugar, há uma diferença na maneira como os evangelhos descrevem a passagem por Jericó, e não temos informação suficiente pra resolvê-la com certeza.
O que os três relatos deixam claro é que Jesus ouviu quem pedia sua ajuda, mesmo quando a multidão tentava calar essas pessoas. Elas o chamaram de “Filho de Davi”, um título ligado ao rei prometido por Deus, e receberam dele a visão que pediam. Depois, seguiram Jesus (Mateus 20:30-34; Marcos 10:47-52; Lucas 18:38-43).