Quando Eclesiastes diz que “tudo é sem sentido”, não está dizendo que amar alguém, trabalhar ou aproveitar um dia bom não vale nada. O livro está fazendo uma pergunta mais difícil: essas coisas conseguem, por si só, dar à vida uma satisfação que dure e explicar tudo o que acontece? A resposta de Eclesiastes é não.
A expressão traduzida por “sem sentido” também pode transmitir a ideia de algo passageiro e difícil de segurar. Pense no trabalho: uma pessoa se esforça durante anos, mas um dia morre e deixa o resultado nas mãos de outra, sem saber o que ela fará com aquilo (Eclesiastes 2:18-19). A sabedoria é melhor que a insensatez, mas nem mesmo o sábio consegue escapar da morte (2:13-16). E nem sempre a vida parece justa: pessoas boas sofrem, enquanto pessoas más prosperam (8:14). É por isso que o autor insiste que não podemos controlar a vida nem fazê-la funcionar sempre como esperamos.
Ele observa tudo isso “debaixo do sol”, isto é, na vida que conhecemos aqui. Isso não quer dizer que o livro inteiro deixe Deus de fora. Eclesiastes fala de Deus muitas vezes. O ponto é que, olhando para o que acontece neste mundo, mesmo quem crê em Deus encontra limites, perdas e perguntas que não consegue resolver.
Por isso, a resposta do livro não é abandonar o trabalho, as pessoas ou as alegrias comuns. Ele nos incentiva a receber com gratidão a comida, o trabalho e os bons momentos como presentes de Deus (Eclesiastes 3:12-13; 5:18-20). Podemos desfrutar dessas coisas sem exigir que elas nos deem aquilo que não podem dar: controle sobre o futuro, justiça imediata ou uma vida sem fim.
Eclesiastes termina chamando o leitor a temer a Deus e guardar seus mandamentos (12:13-14). Temer a Deus, aqui, é levá-lo a sério e viver lembrando que prestaremos contas a ele. Assim, dizer que “tudo é sem sentido” não significa que nada importa. Significa que nenhuma conquista ou prazer deste mundo consegue ser o sentido último da vida. Podemos agradecer pelo que é bom, reconhecer o que não entendemos e viver diante de Deus, em vez de esperar que as coisas passageiras nos deem respostas definitivas.