A história dos levitas mostra duas coisas que vale a pena guardar juntas: a ira pode causar danos que não conseguimos desfazer, mas Deus pode dar um novo propósito a pessoas marcadas por um passado ruim.
Levi era um dos filhos de Jacó, e seus descendentes formaram uma das tribos de Israel. Um episódio difícil da vida dele aparece em Gênesis 34. Depois que sua irmã Diná foi violentada, Levi e seu irmão Simeão atacaram os homens da cidade de Siquém. O crime cometido contra Diná era grave, mas os irmãos responderam com violência contra toda uma cidade. Anos depois, ao falar sobre o futuro dos filhos, Jacó condenou a crueldade de Simeão e Levi e anunciou que seus descendentes seriam espalhados por Israel (Gênesis 49:5–7).
A primeira lição é que ter razão para se indignar não torna qualquer reação correta. É possível reconhecer uma injustiça e, ainda assim, cometer outra ao tentar resolvê-la. A Bíblia não trata toda ira como igual, mas nos alerta sobre a ira que passa a mandar nas nossas decisões. Por isso, antes de agir quando estamos furiosos, precisamos parar e pensar no mal que podemos causar. Jacó não fingiu que a violência dos filhos era aceitável só porque eles tinham uma queixa séria.
Mais tarde, o anúncio de que os descendentes de Levi seriam espalhados se cumpriu: eles não receberam uma região própria como as demais tribos. Deus, porém, lhes deu cidades onde morar e responsabilidades no serviço religioso de Israel (Números 35:1–8; Josué 21). Isso não quer dizer que a violência de Levi tenha se tornado boa ou que suas consequências desapareceram. Quer dizer que aquele passado não impediu Deus de dar uma tarefa importante aos seus descendentes.
Um momento decisivo veio quando Israel fez e adorou o bezerro de ouro. Diante da escolha apresentada por Moisés, os levitas se colocaram ao lado do Senhor (Êxodo 32:25–29). Depois, a tribo recebeu deveres ligados ao tabernáculo e, mais tarde, ao templo. É bom distinguir: os sacerdotes eram da família de Arão, que pertencia à tribo de Levi; os outros levitas ajudavam de diversas maneiras, mas não eram todos sacerdotes (Números 3:5–10).
A vida dos levitas também ensinava algo ao restante de Israel. Eles não tinham uma grande área de terra pra chamar de herança, mas tinham um lugar definido no cuidado com a adoração a Deus. Seu trabalho era valioso mesmo quando não era o trabalho mais visível. Ao mesmo tempo, essa responsabilidade não os colocava acima da necessidade de obedecer a Deus. A história deles não é a de uma tribo que se tornou incapaz de errar, e sim a de uma tribo a quem Deus confiou uma tarefa.
Pra nós, ficam essas lições: não devemos justificar a crueldade em nome de uma causa justa, nem achar que os erros de uma família precisam definir pra sempre o futuro de seus descendentes. E, como cristãos, vemos em Jesus algo que o serviço dos sacerdotes levitas não podia oferecer plenamente: ele nos aproxima de Deus por meio de seu sacrifício (Hebreus 7:23–27). Por isso, quando Pedro chama os seguidores de Cristo de sacerdócio real, ele não está dizendo que cada cristão passou a ser um levita. Ele está dizendo que, por meio de Cristo, pertencemos a Deus e podemos anunciar o que ele fez (1 Pedro 2:9).
A história começa com uma advertência séria sobre a ira, mas não termina nela. Os levitas nos lembram de assumir a responsabilidade pelo mal que fazemos e, ao mesmo tempo, de não perder de vista o que Deus ainda pode fazer com uma vida colocada a seu serviço.