Não. Quando Paulo usa essa frase em 1 Coríntios 6:12 e 10:23, ele não está dizendo que o cristão tem permissão pra pecar. Ele está ensinando que ser livre em Cristo não significa fazer tudo o que se tem vontade. É preciso considerar se uma escolha faz bem, se pode nos dominar e como ela afeta outras pessoas.
Em 1 Coríntios 6, Paulo está falando de imoralidade sexual. Depois de mencionar a frase “todas as coisas me são lícitas”, ele explica por que o corpo do cristão não deve ser usado pra esse tipo de pecado: nosso corpo pertence ao Senhor, e devemos honrar a Deus com ele (1 Coríntios 6:13-20). Portanto, ninguém pode usar a liberdade cristã como desculpa pra fazer algo que Deus condena. Paulo também chama atenção pra outro perigo: não devemos nos deixar dominar por aquilo que fazemos (1 Coríntios 6:12).
Em 1 Coríntios 10, a situação é diferente. A dúvida envolve a carne vendida no mercado, que poderia ter sido oferecida a ídolos. Paulo permite que os cristãos a comprem e comam sem precisar investigar sua origem (1 Coríntios 10:25-26). Mas, se alguém disser que aquela carne foi oferecida a um ídolo, Paulo orienta a não comê-la naquela ocasião, por consideração à consciência da pessoa que avisou (1 Coríntios 10:28-29). A carne, por si só, não é o problema. O que importa ali é o efeito daquela escolha sobre o outro.
A frase “todas as coisas me são lícitas” pode ter sido uma expressão usada pelos próprios coríntios, que Paulo retoma pra corrigir a maneira como pensavam. Seja como for, a resposta dele é clara: nem tudo o que alguém se sente livre pra fazer convém, e nem tudo ajuda os outros (1 Coríntios 6:12; 10:23-24).
Então há uma diferença importante. Se Deus chama algo de pecado, a liberdade cristã não dá permissão pra praticá-lo. Se algo não é errado em si, ainda vale perguntar: isso me faz bem? Pode acabar me dominando? Como minha escolha afeta as pessoas ao meu redor? Paulo resume o sentido dessa liberdade em 1 Coríntios 10:31: até nas decisões comuns, como comer e beber, devemos procurar honrar a Deus.