A dificuldade é real: Ezequiel 26:14 diz que Tiro não seria reconstruída, mas existe uma cidade chamada Tiro no Líbano até hoje. Portanto, não basta responder que “Tiro deixou de ser importante”. A pergunta é se a profecia proibia qualquer construção naquele lugar ou se falava do fim da antiga cidade de Tiro como ela era conhecida.
Na época de Ezequiel, Tiro era uma poderosa cidade comercial. Parte dela ficava no litoral, e sua área mais protegida ficava numa ilha próxima. O capítulo 26 anuncia que várias nações atacariam Tiro, derrubariam suas muralhas e lançariam seus materiais na água. O texto também menciona pelo nome o rei Nabucodonosor, da Babilônia (Ezequiel 26:3, 7-12).
A história mostra que Tiro sofreu ataques severos, mas não foi simplesmente apagada de uma vez. Nabucodonosor a sitiou durante anos. Mais tarde, em 332 a.C., Alexandre, o Grande, conquistou a cidade da ilha depois de construir uma passagem entre ela e o continente, usando materiais da área costeira. Esses acontecimentos ajudam a entender por que a profecia fala tanto da destruição de Tiro quanto de ataques vindos de mais de uma nação. Mas é preciso cuidado: não dá pra dizer que cada detalhe do capítulo tem um cumprimento histórico simples e indiscutível.
O próprio livro de Ezequiel traz uma informação importante. Em Ezequiel 29:18-20, Deus diz que o exército de Nabucodonosor trabalhou muito contra Tiro, mas não recebeu dela a recompensa esperada. Isso impede que a gente afirme que Nabucodonosor conquistou e saqueou sozinho toda a cidade da maneira descrita em Ezequiel 26.
E o que fazer com a frase “nunca será reconstruída”? Uma explicação possível é que ela se refere à antiga Tiro em sua condição anterior: uma cidade-estado rica, fortificada e influente, como a que Ezequiel descreve também no capítulo 27. Desse ponto de vista, haver moradores e edifícios no mesmo local não significa que aquela Tiro tenha sido restaurada. É uma distinção importante, porque a cidade atual não é a antiga potência comercial.
Ao mesmo tempo, precisamos ser honestos sobre o limite dessa resposta. O versículo 14 não diz expressamente “nunca voltará a ter a mesma importância”; ele diz que Tiro não será reconstruída. E o lugar voltou a ser habitado. O Novo Testamento, inclusive, relata que Paulo passou por Tiro e encontrou discípulos ali (Atos 21:3-6). Assim, se alguém entender a frase como uma proibição absoluta de qualquer cidade voltar a existir naquele local, encontrará uma dificuldade histórica verdadeira.
Por isso, a resposta mais cuidadosa é: a existência da Tiro atual não prova, por si só, que Ezequiel fez uma falsa profecia. Há uma leitura coerente segundo a qual o julgamento anunciado era o fim da antiga Tiro, não a impossibilidade de alguém morar ali novamente. Mas também não é correto fingir que a frase “nunca será reconstruída” não oferece nenhuma dificuldade. A conclusão depende de como entendemos essa linguagem dentro do anúncio completo de Ezequiel, e essa interpretação deve ser apresentada como interpretação, não como algo que o versículo explica com todas as letras.