O Terceiro Concílio de Constantinopla decidiu uma questão bem específica sobre Jesus: se ele era plenamente Deus e plenamente humano, tinha também uma vontade divina e uma vontade humana? Reunido entre 680 e 681, o concílio respondeu que sim. Ele rejeitou o ensino de que Cristo tinha apenas uma vontade e afirmou que suas duas vontades não estavam em conflito.
A dúvida vinha de uma discussão anterior. Em 451, o Concílio de Calcedônia havia afirmado que Jesus é uma só pessoa, plenamente divina e plenamente humana. Mas, no século seguinte, surgiu outra pergunta: se ele tem essas duas naturezas, será que tem duas vontades? Alguns líderes cristãos ensinavam que Jesus tinha duas naturezas, mas uma única vontade. Essa posição ficou conhecida como monotelismo.
Quem se opunha a esse ensino via um problema importante nele. Ter vontade faz parte da vida humana. Se Jesus não tivesse uma vontade humana, em que sentido teria assumido por completo a nossa humanidade? Para esses cristãos, afirmar a vontade humana de Jesus não significava dizer que ele era dividido por dentro. Significava reconhecer que ele viveu como ser humano de verdade, sem deixar de ser Deus.
Um momento da vida de Jesus ajuda a entender por que a questão importava. Antes de ser preso, ele orou ao Pai sobre o sofrimento que estava prestes a enfrentar e se dispôs a fazer a vontade dele (Lucas 22:42). O relato mostra que Jesus não estava apenas aparentando sentir o peso daquela situação. Ele a enfrentou de modo verdadeiramente humano e, mesmo assim, obedeceu ao Pai. O texto bíblico não usa a expressão “duas vontades”; o concílio a empregou para explicar como entendia a plena divindade e a plena humanidade de Cristo.
A discussão também tinha consequências políticas. Governantes do Império Bizantino esperavam que a ideia de uma só vontade ajudasse a diminuir divisões entre grupos cristãos. Em vez disso, a controvérsia continuou. O imperador Constantino IV convocou então o concílio em Constantinopla, com a participação de bispos do Oriente e representantes enviados pelo papa Agatão.
Ao final, o concílio afirmou que Cristo possui uma vontade divina e uma vontade humana, assim como é plenamente Deus e plenamente humano. Também deixou claro que sua vontade humana não resistia à divina: Jesus obedecia livremente ao Pai. O concílio reconheceu ainda duas formas de agir correspondentes à sua divindade e à sua humanidade, sem dizer com isso que existiam dois Jesus.
Essa decisão é importante porque protege dois ensinamentos que aparecem nas Escrituras. Jesus participou de verdade da nossa condição humana, enfrentando sofrimento e tentação, embora sem pecar (Hebreus 2:17; 4:15). E aquele que viveu tudo isso é também o Filho de Deus. O concílio não pretendia acrescentar algo à Bíblia, mas explicar como manter juntas essas verdades ao falar de Cristo.