Quando alguém diz que a Bíblia foi inspirada por Deus, surge uma pergunta importante: como Deus participou da escrita de livros produzidos por pessoas, em épocas e situações tão diferentes? As teorias da inspiração tentam responder a isso. Elas não discutem apenas *se* Deus pode falar por meio da Bíblia, mas também se aquilo que os autores escreveram pode ser recebido como Palavra de Deus.
A própria Bíblia dá o ponto de partida. Paulo afirma que toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, corrigir e preparar o povo de Deus pra viver bem (2 Timóteo 3:16-17). Pedro diz que os profetas falaram da parte de Deus, conduzidos pelo Espírito Santo (2 Pedro 1:20-21). Essas passagens afirmam a ação de Deus, mas não descrevem cada detalhe de como ela aconteceu. É aí que aparecem as diferentes explicações.
A teoria do ditado entende que os autores bíblicos escreveram, em geral, como quem anota palavras ditadas por Deus. Algumas passagens mostram, de fato, Deus ordenando a alguém que registre uma mensagem, como em Jeremias 30:2. Mas isso não explica bem a Bíblia inteira. Lucas, por exemplo, conta que investigou cuidadosamente os acontecimentos antes de escrever seu Evangelho (Lucas 1:1-4). Deus pode ter guiado seu trabalho sem dispensar sua pesquisa.
A inspiração limitada afirma que Deus protegeu o ensino espiritual da Bíblia, mas não necessariamente seus relatos sobre fatos históricos ou outros assuntos. Essa posição procura levar a sério a participação humana na escrita. A dificuldade é separar com segurança as duas coisas: muitas vezes, o ensino bíblico depende de acontecimentos que o texto apresenta como reais. Paulo, por exemplo, liga sua explicação sobre a esperança cristã à ressurreição de Jesus (1 Coríntios 15:12-19). Não seria simples dizer que o ensino está protegido de erro, mas o fato em que ele se apoia não está.
A visão neo-ortodoxa, em linhas gerais, distingue a Bíblia de Jesus Cristo, a quem chama de Palavra de Deus no sentido mais pleno. Ela vê a Bíblia como testemunho humano sobre a revelação de Deus e destaca que Deus pode usá-la pra falar às pessoas. Há diferenças entre os pensadores dessa corrente, então seria injusto dizer que todos consideram a Bíblia apenas um livro comum. Ainda assim, essa visão não afirma, do mesmo modo que a posição evangélica tradicional, que o texto bíblico, como Escritura, é a Palavra de Deus.
Por fim, a inspiração verbal e plenária afirma que Deus guiou a escrita da Bíblia inteira — é isso que *plenária* quer dizer — e que sua ação alcançou as palavras do texto, não somente ideias gerais — é isso que *verbal* quer dizer. Nessa compreensão, os autores não foram simples secretários. Eles escreveram com seu próprio vocabulário, estilo e modo de trabalhar. Lucas pesquisou; Paulo escreveu cartas para tratar de situações concretas. Ao mesmo tempo, Deus agiu por meio deles para que escrevessem aquilo que ele queria comunicar.
Essa última é a compreensão tradicional de muitos cristãos evangélicos. Ela procura manter juntas duas verdades que a Bíblia apresenta: as Escrituras vêm de Deus e foram escritas por seres humanos. Não precisamos escolher entre uma e outra. Também não significa que toda frase bíblica seja uma ordem de Deus ou uma afirmação aprovada por ele: a Bíblia registra, por exemplo, falas de pessoas que estavam erradas. Por isso, confiar na inspiração das Escrituras inclui ler cada passagem com atenção ao seu contexto e ao que seu autor está comunicando.