A Teologia do Pacto é uma maneira de entender como as diferentes partes da Bíblia se relacionam. Sua ideia principal é que Deus não criou um jeito de salvar as pessoas no Antigo Testamento e outro no Novo. Desde o começo, a salvação depende da graça de Deus e se cumpre em Jesus Cristo. Nesse ponto, ela ensina algo profundamente bíblico.
A dúvida maior está em como essa teologia explica a relação entre Israel e a igreja e o cumprimento das promessas feitas a Israel. Cristãos que levam a Bíblia a sério chegam a conclusões diferentes sobre isso. Então vale separar o que a Escritura afirma com clareza daquilo que é discutido.
A Bíblia conta que Deus fez alianças em momentos diferentes. Ele prometeu bênçãos a Abraão e aos seus descendentes (Gênesis 12:1-3; 17:1-8), estabeleceu sua aliança com Israel por meio de Moisés (Êxodo 19:3-6) e prometeu a Davi que um descendente seu reinaria (2 Samuel 7:12-16). Mais tarde, anunciou uma nova aliança, na qual perdoaria pecados e transformaria seu povo (Jeremias 31:31-34). O Novo Testamento apresenta Jesus como aquele que trouxe essa nova aliança (Lucas 22:20; Hebreus 8).
A Teologia do Pacto procura mostrar a unidade dessa história. Em muitas de suas formas, fala de uma *aliança da graça*: uma maneira de dizer que Deus salva pecadores pela sua graça, com base na obra de Cristo. Isso não significa que Abraão soubesse tudo o que hoje sabemos sobre Jesus. Significa que ele confiou no Deus que fez as promessas, e que essas promessas apontavam, no fim, para Cristo. Paulo liga a promessa feita a Abraão a Jesus e explica que pessoas de outras nações, quando creem em Cristo, também recebem a bênção prometida (Gálatas 3:7-9, 16, 26-29).
Por isso, quem segue essa linha costuma enfatizar que há um só povo de Deus unido pela fé em Cristo. Há bons fundamentos bíblicos pra dizer que judeus e não judeus que pertencem a Jesus não são salvos de maneiras diferentes. Em Efésios 2:11-22, Paulo explica que Cristo aproximou aqueles que antes estavam longe e fez deles uma só comunidade.
Mas isso resolve todas as perguntas sobre Israel? Não. O mesmo Paulo que ensina essa união também pergunta, em Romanos 11, se Deus rejeitou seu povo, e responde que não. Ele diz que o endurecimento de parte de Israel não é o fim da história e fala de uma futura ação de Deus em favor de Israel (Romanos 11:1-2, 25-29). A imagem que Paulo usa é a de ramos enxertados numa oliveira, não a de uma árvore arrancada para outra ocupar seu lugar (Romanos 11:17-24). Portanto, seria errado dizer simplesmente que Deus abandonou os judeus e os substituiu pela igreja.
É aqui que surgem as diferenças de interpretação. Muitos defensores da Teologia do Pacto entendem que as promessas feitas a Israel encontram seu cumprimento maior em Cristo e alcançam todos os que pertencem a ele. Outros cristãos concordam que judeus e não judeus são salvos somente por Cristo, mas entendem que Deus ainda cumprirá de modo específico certas promessas feitas à nação de Israel, inclusive as ligadas à terra. Romanos 11 é uma passagem importante nessa conversa, mas cristãos divergem sobre exatamente como será a restauração de Israel mencionada ali.
Também não é justo dizer que a Teologia do Pacto simplesmente se recusa a ler a Bíblia em seu sentido natural. A própria Bíblia usa narrativas históricas, poesia, imagens e visões proféticas. Ler bem um texto inclui perceber que tipo de linguagem ele usa e como o Novo Testamento explica as promessas do Antigo. Da mesma forma, não se pode decidir que uma promessa deixou de ter qualquer significado pra Israel apenas porque ela também traz bênçãos à igreja.
O milênio de Apocalipse 20 é um exemplo dessa discussão, mas não define sozinho a Teologia do Pacto. Muitos que a seguem entendem os mil anos de forma simbólica; outros cristãos esperam um reino futuro de mil anos. A questão envolve a interpretação do conjunto das passagens sobre a volta de Cristo, não apenas a escolha entre levar a Bíblia a sério ou não.
Então, a Teologia do Pacto é bíblica? Suas ênfases na graça de Deus, na unidade da história bíblica e em Jesus como cumprimento das promessas têm forte fundamento nas Escrituras. Isso não quer dizer que todas as suas explicações sobre Israel, a terra prometida ou o milênio estejam acima de discussão. A resposta mais cuidadosa é reconhecer o que a Bíblia ensina claramente: Deus é fiel às suas promessas, a salvação vem por Jesus Cristo e ele reúne pessoas de todas as nações. Ao mesmo tempo, Romanos 11 nos impede de tratar o futuro de Israel como se fosse um assunto encerrado.