A teologia da retribuição, no sentido usado nessa pergunta, é a ideia de que Deus dá a cada pessoa, ainda nesta vida, exatamente o que ela merece. Se alguém prospera, seria porque Deus aprova sua conduta. Se sofre, seria porque Deus está castigando algum pecado que cometeu.
A dificuldade está nessa última conclusão. A Bíblia ensina que nossas escolhas têm consequências e que Deus julgará o mal. Mas ela não nos autoriza a olhar pra doença, a pobreza ou uma tragédia e afirmar: “Essa pessoa deve ter feito algo errado”. Também não podemos olhar pra riqueza de alguém e concluir que Deus está satisfeito com ela.
Jó mostra bem por quê. Ele perdeu seus bens, seus filhos e sua saúde. Seus amigos acharam que tanto sofrimento só podia ser resultado de um pecado grave. Mas o leitor sabe, desde o começo do livro, que eles não conheciam a causa do que estava acontecendo. No fim, Deus os repreendeu pela maneira como falaram sobre ele (Jó 1–2; 42:7). Eles transformaram uma suposição em acusação contra um homem que sofria.
Jesus corrigiu esse mesmo tipo de raciocínio. Ao verem um homem cego desde o nascimento, os discípulos perguntaram quem havia pecado para que ele nascesse assim. Jesus rejeitou a ideia de que a cegueira fosse castigo por um pecado daquele homem ou de seus pais (João 9:1-3). Em outra ocasião, falou de dezoito pessoas mortas pela queda de uma torre e disse que elas não eram mais culpadas do que os demais moradores de Jerusalém (Lucas 13:4-5). Uma tragédia, portanto, não nos dá o direito de medir a culpa de suas vítimas.
Isso não quer dizer que nossas atitudes nunca tragam resultados nesta vida. Uma pessoa pode sofrer consequências de escolhas ruins, e Deus pode disciplinar seus filhos (Gálatas 6:7-8; Hebreus 12:6-11). Provérbios também ensina que, em geral, viver com sabedoria faz bem. O erro é transformar essas verdades numa regra sem exceções: “Se aconteceu algo ruim, houve um pecado específico por trás; se aconteceu algo bom, Deus está recompensando aquela pessoa”.
A própria Bíblia mostra que a vida não funciona assim. O salmista ficou perturbado ao ver gente arrogante prosperar (Salmo 73:2-16). E Jesus, que não tinha pecado, sofreu e morreu na cruz. Seu sofrimento não era prova de culpa; ele morreu pelos pecados de outros (1 Pedro 2:22-24).
Então, Deus fará justiça? Sim. A Bíblia ensina que haverá um julgamento final, no qual ele julgará com justiça o que agora não conseguimos ver por completo (Apocalipse 20:11-15). Mas isso é diferente de dizer que toda recompensa e todo castigo já aparecem de forma clara na vida de cada pessoa.
Por isso, diante do sofrimento de alguém, é melhor não tentar adivinhar o que Deus pensa daquela pessoa. Podemos oferecer ajuda, consolo e oração. E, diante da prosperidade de alguém, também não devemos presumir que tudo em sua vida tem a aprovação de Deus. As circunstâncias mostram o que uma pessoa está vivendo; não revelam, por si só, o veredito de Deus sobre ela.