A teologia da dupla aliança é a ideia de que Deus teria dois caminhos de salvação: os judeus continuariam ligados a ele pela aliança feita com Israel, enquanto os não judeus precisariam de Jesus Cristo. Em algumas versões dessa ideia, afirma-se que os judeus seriam salvos pela obediência à Lei de Moisés.
A pergunta por trás disso é importante: se Deus fez promessas a Israel e não voltou atrás nelas, por que um judeu precisaria crer em Jesus? A Bíblia leva as promessas de Deus a Israel muito a sério. Mas ela não apresenta dois caminhos de salvação.
Deus prometeu a Abraão que seria o Deus dele e de seus descendentes (Gênesis 17:7). Paulo também afirma que Deus não revogou seus dons e seu chamado a Israel (Romanos 11:28-29). Portanto, dizer que judeus precisam de Cristo não significa dizer que Deus abandonou o povo judeu ou esqueceu suas promessas.
Ao mesmo tempo, há um detalhe decisivo: quando Deus anunciou a nova aliança, ele disse que a faria com a casa de Israel e com a casa de Judá — não apenas com os outros povos (Jeremias 31:31-34). Jesus era judeu, e seus primeiros discípulos também eram. Eles anunciaram a outros judeus que Jesus era o Messias prometido. Em Atos 2, por exemplo, Pedro chama seus ouvintes judeus ao arrependimento e à fé em Jesus.
Paulo resume o alcance dessa mensagem ao dizer que o evangelho é poder de Deus pra salvar todo aquele que crê, primeiro o judeu e também o não judeu (Romanos 1:16). E, ao tratar da salvação, ele afirma que não há distinção: o mesmo Senhor é Senhor de todos (Romanos 10:12-13). A Lei de Moisés tinha um papel importante na história de Israel, mas não oferecia um caminho de salvação separado de Cristo. Paulo diz que ninguém é justificado diante de Deus por cumprir a Lei, e sim pela fé em Jesus Cristo (Gálatas 2:15-16).
Isso não resolve automaticamente todas as perguntas sobre como as promessas feitas a Israel se cumprirão. Cristãos que reconhecem a autoridade da Bíblia entendem alguns desses detalhes de maneiras diferentes. Mas a distinção principal é clara: a fidelidade de Deus a Israel não significa que judeus e não judeus sejam salvos por meios diferentes. Segundo o Novo Testamento, Jesus é o mediador entre Deus e as pessoas (1 Timóteo 2:5), e a salvação por meio dele é anunciada a todos.
Por isso, a teologia da dupla aliança, entendida como dois caminhos de salvação, não corresponde ao ensino do Novo Testamento. É possível — e necessário — rejeitar o antissemitismo, respeitar o povo judeu e reconhecer as promessas de Deus a Israel sem deixar de afirmar que Jesus é o Salvador tanto de judeus quanto de não judeus.