Quando alguém diz “tive sorte”, geralmente quer dizer que algo bom aconteceu sem que pudesse planejar ou prever. Nesse sentido comum, a palavra não é um problema. A questão é outra: a Bíblia ensina que a vida é governada por uma força chamada sorte, independente de Deus? Não. Ela ensina que muita coisa é imprevisível pra nós, mas nada está fora do conhecimento e do governo de Deus.
Eclesiastes 9:11 observa que o mais rápido nem sempre vence a corrida, e o mais forte nem sempre ganha a batalha. O texto fala do tempo e do acaso. Não está dizendo que Deus perdeu o controle; está descrevendo a vida como a vemos. Capacidade e esforço importam, mas não nos dão controle sobre tudo. Podemos nos preparar muito bem e ainda ser surpreendidos por algo que não tínhamos como antecipar.
A história de Rute ajuda a entender isso. Ela saiu pra recolher espigas e acabou trabalhando no campo de Boaz, um parente da família de sua sogra (Rute 2:3). Rute não sabia que aquele campo seria tão importante pra sua vida. Pra ela, encontrar Boaz foi inesperado. Ao contar o que aconteceu, porém, a história nos convida a perceber o cuidado de Deus agindo numa situação comum, por meio das escolhas e da generosidade das pessoas envolvidas.
Isso não significa que conseguimos descobrir o motivo de cada acontecimento. Seria errado dizer a alguém que sofreu uma perda: “Deus fez isso pra lhe ensinar tal coisa”, quando não sabemos. A Bíblia mostra que Deus pode agir mesmo em circunstâncias dolorosas, mas não nos dá permissão pra explicar com certeza o propósito de cada sofrimento. José, por exemplo, só conseguiu perceber anos depois que Deus havia produzido um bem apesar do mal que seus irmãos lhe fizeram. O mal que eles praticaram continuou sendo mal (Gênesis 50:20).
Provérbios 16:33 diz que até o resultado do lançamento de sortes está sob o governo do Senhor. Na época bíblica, lançar sortes era uma maneira de tomar certas decisões ou resolver disputas. Isso não quer dizer que devemos jogar uma moeda pra descobrir a vontade de Deus em qualquer assunto. O ponto é que nem mesmo o que parece imprevisível escapa à sua autoridade.
Então, se alguém chama um resultado inesperado de “sorte”, não precisa achar que usou uma palavra proibida. Mas o cristão não precisa confiar numa força impessoal chamada sorte, nem viver com medo do azar. Pode reconhecer que não controla o futuro e, ao mesmo tempo, confiar em Deus. Romanos 8:28 dá essa segurança aos que o amam: Deus age em todas as coisas para o bem deles. Isso não quer dizer que todas as coisas sejam boas, mas que nem mesmo as difíceis impedem Deus de cumprir seu propósito.