O “Sínodo Ladrão” foi uma reunião de bispos realizada em Éfeso, no ano 449. Ela deveria resolver uma discussão sobre Jesus Cristo, mas ficou conhecida pela pressão exercida sobre os participantes e pelas decisões tomadas em favor de um dos lados. Dois anos depois, outro concílio rejeitou essas decisões.
A discussão era importante: como Jesus pode ser, ao mesmo tempo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem? A Bíblia afirma as duas coisas. João diz que aquele que se tornou humano já existia como Deus (João 1:1, 14). Hebreus afirma que Jesus participou da nossa condição humana (Hebreus 2:14-17). A dificuldade era explicar isso sem separar Jesus em duas pessoas e sem diminuir sua humanidade ou sua divindade.
Um monge chamado Eutiques havia sido condenado em Constantinopla, em 448, por causa do que ensinava sobre Cristo. Seus críticos entendiam que sua posição não preservava plenamente a humanidade de Jesus depois da união com o divino. Eutiques contestou a condenação. Por ordem do imperador Teodósio II, os bispos se reuniram em Éfeso no ano seguinte pra reexaminar o caso.
A reunião foi presidida por Dióscoro, bispo de Alexandria, que apoiava Eutiques. Sob sua direção, Eutiques foi readmitido, enquanto Flaviano, bispo de Constantinopla e responsável pela condenação anterior, foi deposto. Uma carta do bispo de Roma, Leão, preparada pra apresentar sua posição sobre Cristo, não foi lida durante os trabalhos. Houve relatos de intimidação e de pressão sobre bispos que discordavam das decisões.
Flaviano morreu pouco depois, quando já havia sido afastado e enviado ao exílio. Relatos antigos dizem que ele foi agredido durante o conflito, mas os detalhes da agressão e sua relação exata com a morte não são igualmente seguros em todas as fontes. É melhor não tratar esses detalhes como se fossem indiscutíveis.
Leão rejeitou o que aconteceu em Éfeso e chamou a reunião de *latrocinium*, palavra latina ligada à ideia de roubo ou banditismo. Daí veio o nome “Sínodo Ladrão”. O nome é uma condenação da maneira como a reunião foi conduzida, não uma descrição neutra dela.
Depois da morte de Teodósio II, um novo concílio se reuniu em Calcedônia, em 451. Ele anulou as decisões de Éfeso e depôs Dióscoro. Também afirmou que Jesus Cristo é uma só pessoa, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, sem que sua divindade e sua humanidade se confundam ou se separem.
Assim, o episódio ficou marcado por duas coisas ao mesmo tempo: uma pergunta essencial pra fé cristã — quem é Jesus — e um exemplo de como a disputa por poder e o uso de pressão podem prejudicar uma discussão que deveria buscar a verdade.