“O Segredo” popularizou a chamada lei da atração: a ideia de que nossos pensamentos e sentimentos atraem acontecimentos parecidos com eles. Segundo essa proposta, pensar com confiança no que desejamos ajudaria a trazer aquilo pra nossa vida; pensar negativamente atrairia resultados ruins. Em algumas apresentações, isso é explicado como uma força do universo que responderia aos nossos pensamentos.
A dúvida é compreensível, porque nossos pensamentos realmente fazem diferença. Uma pessoa esperançosa pode encontrar ânimo pra agir, perseverar e lidar melhor com as dificuldades. Já a preocupação constante pode afetar até o corpo. A Bíblia reconhece essa ligação entre o que sentimos e nosso bem-estar (Provérbios 17:22). Mas isso é diferente de dizer que os pensamentos comandam uma força capaz de nos entregar saúde, dinheiro ou qualquer outro resultado.
Pense numa pessoa que precisa de trabalho. A confiança pode ajudá-la a procurar vagas e se preparar pra uma entrevista. Isso não significa que ela conseguirá um emprego apenas por imaginar que já o recebeu. E, se a oportunidade não vier, não significa necessariamente que ela pensou do jeito errado.
É aí que a lei da atração se distancia do ensino bíblico. A Bíblia nos incentiva a orar, trabalhar, agir com sabedoria e confiar em Deus. Ela não ensina que podemos controlar tudo o que acontece conosco pela força da mente. Tiago 4:13-15, por exemplo, lembra que podemos fazer planos, mas não sabemos o que acontecerá amanhã e dependemos da vontade de Deus.
Essa diferença é especialmente importante quando alguém está sofrendo. Dizer a uma pessoa doente ou em dificuldades que ela “atraiu” aquilo por pensar negativamente pode acrescentar culpa a uma dor que já é grande. A Bíblia não trata todo sofrimento como resultado de uma falha pessoal. Em João 9:1-3, Jesus rejeitou a ideia de que a condição de um homem cego fosse necessariamente consequência do pecado dele ou dos pais.
Também vale olhar com cuidado pra promessa de riqueza. A Bíblia valoriza o trabalho e a boa administração do dinheiro, mas não promete prosperidade a quem consegue manter pensamentos positivos. Pelo contrário, Jesus advertiu que o valor da vida não depende da quantidade de bens que alguém possui (Lucas 12:15).
Portanto, não há problema em cultivar gratidão, esperança e confiança. O problema é transformar isso numa promessa de controle sobre a realidade. Na fé cristã, Deus não é uma energia impessoal que podemos usar pra conseguir o que queremos. Podemos apresentar nossos desejos a ele em oração, mas também confiar nele quando a resposta não é a que esperávamos. Essa confiança não nos torna donos do futuro; ajuda-nos a viver com sabedoria e esperança diante de um futuro que não controlamos.