A Bíblia mostra que Saul cometeu uma grave injustiça contra os gibeonitas e que isso precisava ser tratado. Mas ela não diz claramente que os sete descendentes entregues por Davi participaram do crime. Por isso, não dá pra afirmar com segurança que a morte de cada um deles foi um castigo justo por um assassinato que também cometeram.
Pra entender o episódio, precisamos voltar um pouco. Quando Israel entrou na terra de Canaã, seus líderes fizeram um acordo com os gibeonitas e juraram, em nome do Senhor, que não os matariam. Embora os gibeonitas tivessem conseguido esse acordo por meio de um engano, os israelitas decidiram cumprir o juramento (Josué 9:15-20). Anos depois, Saul tentou exterminá-los. Ele não apenas atacou aquelas pessoas; também desrespeitou um compromisso que Israel havia assumido diante de Deus.
No tempo de Davi, houve três anos de fome. Ao consultar o Senhor, Davi soube que a situação estava ligada ao que Saul e sua casa tinham feito contra os gibeonitas (2 Samuel 21:1). Davi então perguntou aos gibeonitas como poderia reparar aquela injustiça. Eles pediram sete homens da família de Saul para serem mortos, e Davi os entregou (2 Samuel 21:2-9).
É aqui que surge a parte mais difícil da pergunta. A expressão usada em 2 Samuel 21:1 associa a culpa à *casa* de Saul. Isso pode indicar que outras pessoas ligadas a ele tiveram participação no ataque. O texto, porém, não conta o que cada um dos sete fez. Ser descendente de Saul, por si só, não prova que alguém ajudou a matar os gibeonitas. E a lei dada a Israel dizia que uma pessoa não deveria ser executada pelo pecado de seu pai (Deuteronômio 24:16). Não seria correto preencher esse silêncio da narrativa com a certeza de que todos eram culpados.
Também é importante distinguir o que Deus disse do que os homens decidiram. Deus revelou a causa da fome. O pedido pelos sete descendentes veio dos gibeonitas, e Davi concordou com ele. Depois que os mortos receberam sepultura, o relato diz que Deus atendeu às súplicas em favor da terra (2 Samuel 21:10-14). Isso mostra que a injustiça contra os gibeonitas não podia simplesmente ser ignorada. Mas não equivale a uma declaração explícita de Deus de que cada uma daquelas sete mortes foi uma punição justa pela culpa pessoal de quem morreu.
Então, a resposta mais fiel ao relato é esta: Saul foi culpado, a violência contra os gibeonitas exigia uma resposta, e Deus levou a sério o juramento quebrado por Israel. Quanto aos sete descendentes, a Bíblia não nos dá informações suficientes pra dizer se eles participaram do crime nem pra declarar que a execução de cada um foi justa. O episódio deve ser lido com a seriedade que ele merece, sem justificar além do que o próprio texto permite.