Não. Às vezes, ajudar alguém a enfrentar uma consequência é um ato de amor. O problema é quando a ajuda encobre o erro ou facilita sua repetição. A pergunta não é apenas “Posso aliviar o sofrimento dessa pessoa?”, mas também “O que minha ajuda vai fazer com ela e com as pessoas afetadas pelo que ela fez?”.
A Bíblia nos chama a socorrer quem está em perigo e a cuidar de quem passa necessidade (Provérbios 24:11; Tiago 1:27). Também nos ensina a ajudar uns aos outros a suportar dificuldades (Gálatas 6:2). Por isso, não seria correto ver alguém em risco e simplesmente dizer: “A culpa é sua; aguente as consequências”. A misericórdia não desaparece só porque a pessoa tomou decisões erradas.
Ao mesmo tempo, a Bíblia mostra que nossas escolhas têm consequências e que nem sempre é bom eliminá-las. Gálatas 6:7-8 ensina que aquilo que a pessoa planta tem relação com aquilo que colhe. E, no mesmo capítulo que nos manda ajudar a carregar os fardos uns dos outros, Paulo diz que cada um deve assumir a própria responsabilidade (Gálatas 6:5). As duas coisas precisam andar juntas: oferecer apoio sem assumir no lugar da pessoa aquilo que cabe a ela fazer.
Pense em alguém que gastou repetidamente o dinheiro da família em apostas e agora pede ajuda pra pagar as contas. Pode haver crianças ou outras pessoas que não devem ficar sem o necessário. Ajudá-las é importante. Mas entregar dinheiro sem enfrentar o problema das apostas pode apenas preparar a próxima crise. Uma ajuda mais responsável talvez seja atender à necessidade urgente, proteger os familiares afetados e, ao mesmo tempo, deixar claro que a pessoa precisa parar de apostar, prestar contas do dinheiro e buscar ajuda.
Isso também vale pra outros erros. Um pai pode continuar amando e apoiando um filho que cometeu um crime, sem mentir pra polícia nem impedir que ele responda pelo que fez. Um amigo pode acompanhar alguém no esforço de reparar um dano, sem inventar desculpas pra esconder o que aconteceu. Em Gálatas 6:1, Paulo orienta os cristãos a procurar restaurar, com mansidão, quem caiu em pecado. Restaurar não é abandonar a pessoa, mas também não é fingir que o pecado não importa.
É preciso tomar cuidado com a ideia de que todo sofrimento é uma lição que devemos deixar acontecer. Nem toda consequência é justa ou segura, e não sabemos tudo o que Deus está fazendo numa situação. Se alguém corre perigo, ou se pessoas vulneráveis podem sofrer, a prioridade é protegê-las. Também não devemos presumir que toda pessoa que pede ajuda está tentando manipular os outros.
Então, como decidir? Vale perguntar: essa ajuda atende a uma necessidade real sem esconder a verdade? Ela protege quem pode ser prejudicado? Incentiva a pessoa a assumir responsabilidade e a mudar, ou permite que continue fazendo a mesma coisa? Podemos perdoar, acolher e ajudar de modo concreto. O que não precisamos fazer é mentir, sustentar repetidamente um comportamento destrutivo ou tomar pra nós uma responsabilidade que a outra pessoa precisa assumir.