Não. É possível questionar a fé em Deus, discordar dela e pedir razões para crer. Mas chamar toda pessoa religiosa de ridícula não responde à pergunta mais importante: há bons motivos para crer?
Essa é a questão por trás de *Religulous*, filme de 2008 em que Bill Maher critica várias religiões, especialmente o cristianismo. Algumas críticas merecem ser levadas a sério. Pessoas religiosas podem agir com crueldade, manipular outras pessoas ou defender ideias sem fundamento. A própria Bíblia condena quem usa a aparência de devoção enquanto pratica o mal (Mateus 23:27-28). Um cristão não precisa defender esses erros para defender sua fé.
Ao mesmo tempo, o erro de um cristão não prova que Deus não existe, assim como uma boa ação de um cristão não prova, por si só, que ele existe. Pra avaliar a fé cristã, precisamos olhar também para aquilo em que ela se apoia.
Um ponto importante é Jesus. A ideia de que ele nunca existiu não corresponde à posição predominante entre os historiadores. Além dos textos cristãos do primeiro século, autores antigos como Josefo e Tácito fazem referência a ele ou aos acontecimentos ligados à sua morte. Isso não demonstra, por si só, que Jesus é o Filho de Deus ou que ressuscitou. Mostra, porém, que a discussão sobre o cristianismo não começa com um personagem simplesmente inventado.
Outra crítica comum diz que os cristãos copiaram de outras religiões a história de Jesus. Essa afirmação exige cuidado. Há temas que aparecem em religiões diferentes, mas uma semelhança geral não prova que uma história foi copiada da outra. Seria preciso comparar os relatos com precisão e mostrar quando cada um surgiu. Também não é correto afirmar, sem examinar cada caso, que todas as semelhanças apareceram depois do cristianismo. A pergunta central continua sendo o que as primeiras testemunhas cristãs afirmaram sobre Jesus e que razões temos para considerar seu testemunho.
A Bíblia, aliás, não apresenta a fé como uma ordem para parar de pensar. Lucas diz que investigou os acontecimentos antes de escrever seu relato (Lucas 1:1-4). Paulo afirma que, se Cristo não ressuscitou, a pregação cristã e a fé seriam vazias (1 Coríntios 15:14-19). Ou seja, o cristianismo faz afirmações que importam de verdade; ele não pede que a pessoa acredite em algo indiferente aos fatos.
Isso também não significa que todas as dúvidas tenham respostas fáceis. Há perguntas difíceis sobre Deus, o sofrimento e a própria Bíblia. Fazer essas perguntas não torna ninguém menos inteligente nem menos honesto. E o Salmo 14:1, que chama de insensato aquele que diz que Deus não existe, não dá aos cristãos permissão pra insultar toda pessoa que duvida. O salmo trata de uma vida marcada pela corrupção e pela falta de compromisso com o bem; não autoriza ninguém a presumir que conhece os motivos íntimos de outra pessoa.
Portanto, a fé em Deus não deve ser aceita só porque alguém religioso a defende, nem descartada porque alguém religioso age mal ou porque um filme faz dela motivo de riso. A resposta mais honesta é examinar o que o cristianismo afirma sobre Jesus, considerar suas razões e levar as dúvidas a sério. É uma conversa importante demais pra ser resolvida com deboche.