Não dá pra afirmar que a religião causou a maioria das guerras. Não existe uma conta simples e confiável que resolva isso, porque uma guerra pode ter vários motivos ao mesmo tempo: disputa por terras, poder político, medo de um inimigo e também diferenças religiosas. Mas seria igualmente errado dizer que a religião não teve responsabilidade por guerras. Teve, e em alguns casos foi usada pra justificar violência terrível.
As Cruzadas e as guerras entre católicos e protestantes na Europa deixam isso claro. Pessoas que se diziam cristãs lutaram e mataram em nome da fé. Reconhecer que havia interesses políticos nesses conflitos não apaga o papel da religião nem diminui o sofrimento causado. Ao mesmo tempo, as duas guerras mundiais mostram que diferenças religiosas não são necessárias pra que sociedades entrem em conflitos devastadores.
A Bíblia ajuda a entender uma questão que vai além da contagem das guerras: por que seres humanos continuam encontrando razões pra ferir uns aos outros? Tiago pergunta de onde vêm as brigas entre as pessoas e aponta pra desejos que as dominam, como a cobiça (Tiago 4:1-3). Ele está falando diretamente de conflitos entre pessoas, não fazendo uma análise de todas as guerras da história. Ainda assim, o que ele diz ajuda a reconhecer algo que também aparece em conflitos maiores: gente querendo possuir, controlar ou vencer a qualquer custo. Jesus também ensina que atos como o homicídio começam no coração humano (Mateus 15:19).
Isso não significa que a religião seja apenas uma desculpa e, por isso, nunca possa ser responsabilizada. Ideias religiosas podem influenciar de verdade as decisões de uma pessoa. Um líder pode usar a fé pra convencer outros a lutar, e quem o segue pode acreditar sinceramente que está fazendo o bem. Por isso, é preciso olhar com honestidade tanto pras motivações humanas quanto para aquilo que foi ensinado e feito em nome de Deus.
No caso do cristianismo, há uma diferença importante entre o que Jesus ensinou e o que cristãos fizeram ao longo da história. Jesus mandou seus seguidores amar os inimigos e orar por quem os persegue (Mateus 5:44). Quando Pedro usou uma espada pra defendê-lo, Jesus o mandou guardá-la (Mateus 26:51-52). Esses ensinamentos não tornam inocentes os cristãos que praticaram violência. Pelo contrário: dão uma razão pra reconhecer que agiram contra o exemplo de Cristo.
Então, a resposta mais cuidadosa é esta: a religião esteve por trás de algumas guerras e contribuiu para outras, mas não há base pra dizer que ela causou a maioria delas. Segundo a Bíblia, a violência não desapareceria simplesmente se a religião desaparecesse, porque a cobiça, o orgulho e a crueldade também podem se expressar por meio da política, do nacionalismo ou de outras ideias. A esperança cristã vai mais fundo: Deus promete um futuro em que as nações deixarão de aprender a guerra (Isaías 2:4). Até lá, seguir Jesus inclui rejeitar o uso da fé como desculpa pra odiar e tratar o próximo como alguém a quem devemos amar.