Em Gênesis 15:1, Deus fala com Abrão depois de uma batalha em que ele resgatou seu sobrinho Ló. Abrão também havia recusado os bens que o rei de Sodoma lhe ofereceu. É nesse momento que Deus lhe diz para não ter medo: ele seria seu escudo e lhe daria uma recompensa muito grande. A ideia é clara: Abrão podia confiar em Deus para protegê-lo e cumprir o que havia prometido, mesmo sem aceitar a riqueza daquele rei.
Há um detalhe importante na pergunta. Algumas traduções apresentam a fala de Deus como se ele dissesse: “Eu sou o seu escudo e a sua grande recompensa.” Outras a apresentam no sentido de: “Eu sou o seu escudo e lhe darei uma grande recompensa.” A forma da frase em hebraico permite essa diferença. Por isso, não é bom usar esse versículo sozinho para afirmar que a recompensa prometida era *somente* o próprio Deus, nem para excluir Deus daquilo que tornava a promessa tão preciosa.
O próprio Abrão mostra qual era sua preocupação mais urgente. Logo depois, ele pergunta a Deus o que receberia, já que ainda não tinha um filho para herdar seus bens. Deus então promete que ele teria um descendente e que sua família se tornaria numerosa (Gênesis 15:2-5). Mais adiante, confirma também a promessa da terra (Gênesis 15:18-21). Portanto, naquele momento, a grande recompensa incluía promessas bem concretas: um filho, muitos descendentes e uma terra para eles.
Mas essas promessas não estavam separadas de Deus. Abrão não tinha como produzir, por conta própria, o futuro que Deus lhe anunciava. Ele precisava confiar naquele que fez a promessa. É por isso que Gênesis 15:6 dá tanta importância à fé de Abrão: ele creu no Senhor. O maior motivo para ter esperança não era algo que Abrão já possuía; era o Deus que estava com ele e cumpriria sua palavra.
Isso ajuda a entender em que sentido podemos dizer que Deus é nossa maior recompensa. A Bíblia fala das coisas boas que ele dá, mas também mostra que conhecer a Deus e pertencer a ele é um bem que não se perde quando outras coisas faltam. No Salmo 73:25-26, o salmista expressa que, mesmo diante da fraqueza e da perda, Deus continua sendo sua herança para sempre.
Para os cristãos, essa esperança está ligada a Jesus Cristo. Por meio dele, recebemos a vida com Deus e esperamos a herança que ele nos prometeu (1 Pedro 1:3-4). Isso não é um pagamento por termos sido bons o suficiente: a salvação é um presente da graça de Deus, recebido pela fé (Efésios 2:8-9).
Então, Gênesis 15:1 não nos ensina a desprezar as bênçãos que Deus dá. Ele nos lembra de algo ainda mais seguro: a nossa esperança depende do próprio Deus. Abrão podia esperar por um filho e por uma terra porque o Senhor estava com ele. E, em Cristo, podemos esperar pela vida que Deus prometeu porque ele nos recebe como seu povo e estará conosco para sempre.