Não há evidência de que os Dez Mandamentos tenham sido copiados dos chamados 42 preceitos de Ma’at. Existem semelhanças entre eles, mas a semelhança, sozinha, não mostra que um texto veio do outro. Proibir o roubo, a mentira e o adultério, por exemplo, não era uma ideia exclusiva de um único povo.
Ma’at era associada, na religião do antigo Egito, à verdade, à justiça e à ordem. Em textos funerários egípcios, especialmente no capítulo 125 do *Livro dos Mortos*, o falecido declara diante de seres divinos que não praticou determinados males. Daí vem o nome “42 preceitos”. Mas é bom notar a diferença: não se trata de uma lista fixa de 42 leis dadas à população. As declarações variam entre os textos e costumam ter a forma “não fiz isto” ou “não fiz aquilo”.
Os Dez Mandamentos aparecem em outra situação. Em Êxodo 20 e Deuteronômio 5, eles são apresentados como mandamentos de Deus a Israel, dentro da aliança que ele fez com esse povo. Alguns tratam da relação com outras pessoas, como não matar, não cometer adultério, não roubar e não dar falso testemunho. Outros tratam diretamente da relação de Israel com o Senhor, como não adorar outros deuses e guardar o sábado. Não são apenas afirmações de alguém dizendo que se comportou bem; são ordens dirigidas a um povo.
É verdade que Moisés tinha uma ligação com o Egito. Segundo a Bíblia, ele foi criado ali e recebeu educação egípcia (Êxodo 2:10; Atos 7:22). Por isso, faz sentido perguntar se conhecia ideias daquela cultura. O que não podemos fazer é passar dessa possibilidade pra afirmação de que ele retirou os Dez Mandamentos das declarações de Ma’at. Pra dizer que houve cópia, seria preciso mais do que apontar temas parecidos e observar que a tradição egípcia é antiga. Seria necessário mostrar uma ligação concreta entre os textos que explicasse por que aqueles mandamentos teriam vindo daquela fonte.
Do ponto de vista bíblico, também não há dificuldade em reconhecer que outros povos condenavam certas maldades. Paulo diz que até pessoas que não receberam a Lei dada a Israel podem ter consciência do que é certo e errado (Romanos 2:14-15). Isso ajuda a entender por que diferentes culturas podem concordar que roubar ou mentir é errado. A passagem, porém, não serve como prova histórica de que um texto não influenciou o outro.
Então, a resposta mais cuidadosa é esta: há pontos morais em comum, mas não há base suficiente pra dizer que os Dez Mandamentos foram retirados dos 42 preceitos de Ma’at. Reconhecer as semelhanças não exige negar o que a Bíblia afirma sobre os mandamentos: ela os apresenta como palavras de Deus a Israel, não como uma adaptação de declarações funerárias egípcias.