Depende do que queremos dizer com *multiculturalismo*. Se estamos falando de pessoas de diferentes povos, línguas e costumes vivendo juntas, a Bíblia nos dá bons motivos pra acolher essa diversidade. Mas, se a ideia é que todas as crenças religiosas são igualmente verdadeiras, a resposta bíblica é diferente. Respeitar uma pessoa não exige concordar com tudo o que ela acredita.
A Bíblia começa dizendo que todos os seres humanos foram criados à imagem de Deus (Gênesis 1:26–27). Por isso, ninguém vale menos por causa da origem, da língua ou dos costumes da sua família. E a diversidade de povos não desaparece da visão que João tem da adoração a Deus: ele vê pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas diante do trono de Deus (Apocalipse 7:9).
A igreja também aprendeu, desde o começo, a acolher pessoas de origens diferentes. Em Atos 10, Pedro precisou entender que não devia tratar pessoas de outros povos como indignas de ouvir a mensagem de Jesus. Mais tarde, Paulo ensinou que judeus e não judeus são recebidos em Cristo pela fé, não por pertencerem a um povo específico (Gálatas 3:28; Efésios 2:13–18). Isso não quer dizer que todas as diferenças culturais deixam de existir. Quer dizer que nenhuma delas torna alguém superior diante de Deus.
Ao mesmo tempo, nem todo costume é bom só por fazer parte de uma cultura. Isso vale pra cultura dos outros e pra nossa também. O cristão pode aprender com pessoas diferentes, respeitar seus hábitos e adaptar-se a eles quando isso for apropriado. Paulo fazia ajustes na maneira de se relacionar com as pessoas pra não criar obstáculos desnecessários à sua mensagem (1 Coríntios 9:19–23). Mas ele também ensinava os cristãos a não seguir práticas contrárias à vontade de Deus (Romanos 12:2).
Essa distinção fica especialmente importante quando o assunto é religião. Podemos defender o direito de alguém crer de modo diferente, ouvi-lo com respeito e tratá-lo com amor. Ainda assim, o cristão não pode dizer que todas as ideias sobre Deus são verdadeiras ao mesmo tempo, porque Jesus apresentou a si mesmo como o caminho ao Pai (João 14:6; veja também 1 Timóteo 2:5). A Bíblia pede que a fé cristã seja explicada com respeito e mansidão, não com desprezo por quem discorda (1 Pedro 3:15–16).
E quanto às políticas de um país? A Bíblia ensina a respeitar as autoridades e a buscar uma convivência responsável com outras pessoas (Romanos 13:1–7). Ela não estabelece, porém, uma política única de imigração ou uma medida exata de quanto cada costume deve ser preservado ou compartilhado. Essas decisões exigem cuidado e podem ser discutidas por cristãos que levam a Bíblia a sério. Se uma autoridade exigir algo contrário ao que Deus ordena, a fidelidade a Deus vem primeiro (Atos 5:29).
Então, uma perspectiva bíblica acolhe pessoas de todas as origens e não confunde diferença cultural com falta de valor. Ela também não transforma respeito em concordância com toda crença ou prática. O cristão é chamado a amar o próximo, examinar os costumes — inclusive os seus — à luz da Palavra de Deus e falar da sua fé sem deixar de tratar ninguém com dignidade.