A Bíblia não ensina claramente que, depois de morrer, uma pessoa salva por Cristo precise passar por um período de sofrimento pra ser purificada antes de estar com Deus. A doutrina do purgatório é uma interpretação da tradição católica; cristãos evangélicos não a aceitam porque entendem que ela não encontra apoio suficiente nas Escrituras.
É importante explicar essa diferença com justiça. Os católicos não ensinam que alguém possa ir ao purgatório *em vez de* ser salvo por Jesus. Segundo a doutrina católica, quem passa por essa purificação já morreu na graça de Deus e tem a salvação assegurada. A questão, então, é mais específica: a Bíblia diz que essa purificação acontece depois da morte, por meio de uma condição como o purgatório?
Uma passagem muito discutida é 1 Coríntios 3:10-15. Paulo compara o trabalho de quem ensina e serve na igreja a uma construção. Ele diz que chegará o dia em que a qualidade desse trabalho será revelada e testada como que pelo fogo. Se a obra de alguém não permanecer, essa pessoa sofrerá perda, embora seja salva. O assunto ali é a avaliação daquilo que foi construído sobre o fundamento, que é Cristo. Paulo não descreve uma pessoa passando algum tempo num lugar de purificação depois de morrer. Por isso, essa passagem não estabelece a doutrina do purgatório.
O Novo Testamento dá grande ênfase ao que a morte de Jesus realizou. Hebreus 10:10-14 apresenta seu sacrifício como único e suficiente. Romanos 8:1 afirma que não há condenação pra quem está em Cristo Jesus. Isso não significa que o cristão se torne perfeito nesta vida, nem que suas escolhas deixem de ter consequências. Significa que seu perdão e sua aceitação diante de Deus dependem de Cristo, não de um sofrimento posterior que complete o pagamento por seus pecados.
Paulo também fala da morte do cristão como a perspectiva de estar com o Senhor (2 Coríntios 5:6-8; Filipenses 1:23). Essas passagens não explicam todos os detalhes do que acontece entre a morte e a ressurreição futura. Mas apresentam a presença de Cristo, não um período de purificação, como a esperança de quem lhe pertence.
Há ainda uma diferença entre as Bíblias usadas por católicos e evangélicos. Os católicos incluem 2 Macabeus, livro que relata orações em favor dos mortos (2 Macabeus 12:38-46). Os evangélicos não o consideram parte das Escrituras. Além disso, mesmo para quem aceita esse livro, o relato de uma oração pelos mortos não descreve, por si só, todos os elementos da doutrina católica do purgatório.
Portanto, a resposta é: a Bíblia não apresenta o purgatório como um ensinamento claro. Na compreensão evangélica, quem morre pertencendo a Cristo pode confiar plenamente nele: sua salvação está firmada no sacrifício de Jesus, e sua esperança depois da morte é estar com o Senhor.