Os ptolomeus e os selêucidas foram duas famílias de governantes que disputaram a terra dos judeus nos séculos anteriores ao nascimento de Jesus. Eles não aparecem pelo nome no Novo Testamento, mas conhecer essa história ajuda a entender como a Judeia passou do domínio persa, no fim do Antigo Testamento, ao domínio romano, nos Evangelhos.
Tudo começou depois da morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C. Alexandre havia conquistado o Império Persa, que governava os judeus. Como ele morreu sem deixar um sucessor capaz de manter seu vasto império unido, seus comandantes dividiram o poder. Daí surgiram, entre outros reinos, o dos ptolomeus, no Egito, ao sul da Judeia, e o dos selêucidas, na Síria e em outras terras a leste, ao norte. A Judeia ficava entre os dois, e por isso foi afetada pelas disputas entre eles.
Durante boa parte do século III a.C., a Judeia esteve sob o controle dos ptolomeus. Por volta de 200 a.C., passou ao domínio selêucida. A mudança mais marcante veio no reinado de Antíoco IV Epifânio, um dos reis selêucidas. Ele tentou impor práticas religiosas gregas aos judeus, proibiu práticas da fé judaica e profanou o templo de Jerusalém. Isso provocou uma revolta judaica, conhecida como revolta dos macabeus. Em 164 a.C., os judeus recuperaram e dedicaram novamente o templo a Deus. A Festa da Dedicação, mencionada em João 10:22–23, relembra esse acontecimento; hoje ela é conhecida como Hanucá.
Esses reinos também ajudam a compreender o livro de Daniel. Em Daniel 8:20–22, uma visão fala da derrota do império persa pelo reino grego e de sua posterior divisão em quatro reinos. A interpretação histórica mais comum relaciona essa divisão aos reinos que surgiram após Alexandre. Muitos intérpretes também entendem que parte das disputas entre o “rei do Norte” e o “rei do Sul”, em Daniel 11, se refere aos conflitos entre selêucidas e ptolomeus. Daniel não usa os nomes dessas famílias, por isso essa identificação deve ser apresentada como interpretação das visões à luz da história.
O impacto deles não foi só político. Depois das conquistas de Alexandre, a língua e os costumes gregos se espalharam por toda a região, inclusive durante os governos ptolomaico e selêucida. Essa influência continuou mesmo quando Roma assumiu o poder. Ela ajuda a explicar por que o Novo Testamento foi escrito em grego, embora Jesus e seus primeiros discípulos fossem judeus.
Assim, os ptolomeus e os selêucidas ajudam a entender o que aconteceu *entre* os dois testamentos. A Judeia não passou diretamente da Pérsia pra Roma: viveu séculos de domínio e influência grega. Nesse período ocorreram conflitos que marcaram profundamente o povo judeu, incluindo a profanação e a recuperação do templo — acontecimentos cuja lembrança ainda aparece no cenário do Novo Testamento.