São textos antigos apresentados como se tivessem sido escritos por alguém conhecido da história bíblica, embora tenham surgido muito depois dessa pessoa. Um escrito com o nome de Enoque, Abraão ou Pedro, por exemplo, podia despertar interesse porque parecia trazer palavras ou revelações daquele personagem. É isso que significa *pseudepigráfico*: um texto atribuído a um autor que não o escreveu.
Mas é bom não tirar uma conclusão apressada: nem todo texto desse tipo foi necessariamente criado pra enganar. Em alguns casos, o autor pode ter usado o nome de um personagem antigo como forma de escrever uma história ou transmitir ensinamentos, algo que existia na literatura da época. Em outros, a atribuição podia, sim, fazer o leitor acreditar que estava diante de palavras autênticas daquela pessoa. Cada obra precisa ser examinada por seus próprios méritos.
Há escritos pseudepigráficos ligados tanto a personagens do Antigo quanto do Novo Testamento. Entre os exemplos mais conhecidos estão *1 Enoque* e alguns evangelhos e atos atribuídos a apóstolos. Eles não formam um único grupo com a mesma origem ou as mesmas ideias. Também não convém usar “pseudepigráficos” como se fosse simplesmente outro nome para os livros deuterocanônicos: são questões diferentes.
Esses livros fazem parte da Bíblia? No cânon protestante, não. Um nome bíblico na capa não basta pra mostrar que um escrito veio daquela pessoa, muito menos que foi inspirado por Deus. Pra entender como os cristãos avaliaram esses textos, importam perguntas como: quando foram escritos, o que ensinam e se há boas razões pra aceitar a autoria que apresentam. As diferentes tradições cristãs não têm exatamente a mesma lista de livros bíblicos; por exemplo, *1 Enoque* é recebido como Escritura pela Igreja Ortodoxa Etíope, mas não pelas tradições protestante, católica romana e pela maioria das demais tradições cristãs.
A própria Bíblia mostra por que a autoria de um escrito era uma preocupação séria. Em 2 Tessalonicenses 2:2, Paulo alerta os cristãos contra uma mensagem ou carta apresentada como se viesse dele e dos seus companheiros. Mais adiante, em 2 Tessalonicenses 3:17, chama atenção pra saudação escrita de próprio punho em suas cartas. Isso não prova que todo livro pseudepigráfico tenha sido uma falsificação mal-intencionada, mas mostra que atribuir uma mensagem à pessoa errada podia confundir os leitores.
E há um detalhe que costuma causar dúvida: Judas 14-15 apresenta uma profecia atribuída a Enoque, conhecida também em *1 Enoque*. Isso não significa, por si só, que Judas estivesse reconhecendo o livro inteiro como Escritura. Ele utiliza aquela declaração em sua argumentação; a referência a um trecho não resolve automaticamente a questão da autoridade de toda a obra.
Assim, os pseudepigráficos podem ajudar a conhecer ideias e discussões religiosas do mundo antigo. Só é importante lê-los sabendo o que são: textos atribuídos a personagens que não foram seus autores, e não livros que devam ser aceitos como parte da Bíblia apenas por trazerem um nome conhecido.