No tempo de Jacó, era comum o homem dar algo à família da mulher com quem queria se casar. Podia ser dinheiro, bens ou trabalho. Esse pagamento fazia parte do acordo entre as famílias e mostrava que o pretendente estava disposto a assumir o compromisso do casamento. Hoje, o nome mais preciso pra esse costume é preço da noiva; a palavra *dote* também é usada, mas pode causar confusão, porque muitas vezes se refere aos bens que a família da mulher entrega ao casal.
Jacó ofereceu trabalhar sete anos pra Labão, pai de Raquel, porque queria se casar com ela (Gênesis 29:18-20). Ao fim desse período, Labão o enganou e lhe deu Lia, a irmã mais velha, como esposa. Depois, concordou em dar Raquel a Jacó também, com a condição de que ele trabalhasse mais sete anos. Jacó se casou com Raquel após a semana de celebração do casamento com Lia e então cumpriu os outros sete anos de trabalho (Gênesis 29:21-30).
É por causa dessa história que as palavras de Lia e Raquel em Gênesis 31:15 fazem sentido. Quando Jacó se preparava pra sair da casa de Labão, elas reclamaram que o pai as havia tratado como se as tivesse vendido e consumido o que recebera por elas. Do ponto de vista das duas, Labão tinha se beneficiado dos muitos anos de trabalho de Jacó, mas não tinha cuidado delas como elas esperavam. Elas chegaram a dizer que já não contavam com uma parte na casa do pai (Gênesis 31:14-16).
Portanto, o pagamento tinha um papel no acordo de casamento, mas o texto não diz que Labão era obrigado a entregar uma quantia específica às filhas. A queixa delas é mais ampla: o pai recebeu o benefício do trabalho de Jacó e, em vez de agir em favor da família, ficou com tudo pra si. O problema que Gênesis destaca não é simplesmente a existência daquele costume, e sim a maneira interesseira como Labão tratou Jacó e as próprias filhas.