Uma pessoa não precisa crer em Deus pra amar os filhos, ajudar um desconhecido ou reconhecer que maltratar alguém é errado. A pergunta por trás do chamado “problema do bem” é outra: *se algumas atitudes são realmente certas ou erradas, mesmo quando alguém discorda, o que torna isso verdade?*
É importante separar duas coisas. Uma é reconhecer e praticar o bem; outra é explicar por que ele é bom. Cristãos não precisam dizer que quem não crê em Deus é incapaz de agir com bondade. A própria Bíblia apresenta pessoas que não receberam a lei dada a Israel e, ainda assim, mostram conhecer deveres morais (Romanos 2:14-15).
O ponto fica mais claro quando pensamos numa injustiça. Se alguém explora uma pessoa indefesa, não queremos dizer apenas: “Eu não gosto disso” ou “Na minha sociedade isso é malvisto”. Queremos dizer que aquilo está errado *mesmo que* o agressor aprove, ou que uma sociedade inteira aceite a prática. É essa diferença entre preferência e obrigação moral que o problema do bem tenta explicar.
A ciência pode ajudar muito nessa conversa. Ela pode mostrar, por exemplo, como a violência afeta uma pessoa e quais cuidados favorecem sua saúde. Mas descobrir o que causa sofrimento não resolve, sozinho, toda a questão moral. Ainda precisamos responder por que devemos nos importar com quem sofre, especialmente quando cuidar dessa pessoa exige sacrifício e não traz vantagem pra nós.
Alguns pensadores entendem que o bem pode ser explicado sem Deus. Outros veem em Deus o fundamento mais convincente pra deveres morais que valem pra todos. Não seria justo dizer que todo ateu nega o certo e o errado, nem que o argumento moral prova a existência de Deus de um jeito que encerra qualquer discussão.
A resposta cristã começa em quem Deus é. O bem não é uma regra inventada por ele sem motivo, como se algo cruel pudesse se tornar bom apenas porque ele mandou. Também não é um padrão acima dele, ao qual precisaria obedecer. A Bíblia apresenta Deus como bom e justo; seus mandamentos mostram seu caráter (Salmo 145:9, 17). Por isso, amar o próximo e agir com justiça não são exigências sem explicação. Elas combinam com o Deus que nos criou (Miqueias 6:8; Mateus 22:37-40).
Isso também explica por que cada pessoa merece respeito, não só aquelas que conseguem contribuir mais pra sociedade. Segundo Gênesis 1:26-27, os seres humanos foram criados à imagem de Deus. Seu valor, portanto, não depende de saúde, força, inteligência ou utilidade. E, segundo a fé cristã, o exemplo mais claro desse amor aparece em Jesus: ele não apenas ensinou a fazer o bem, mas se entregou por pessoas que não tinham como merecer isso (Romanos 5:8).
Assim, o “problema do bem” não é uma acusação contra quem não crê em Deus. É uma pergunta sobre o fundamento do bem que todos buscamos reconhecer. A resposta bíblica é que podemos conhecer e praticar coisas boas porque fomos criados por um Deus bom. E Jesus nos mostra como é essa bondade quando ela se transforma em amor ao próximo.