A Bíblia não usa a expressão “privilégio branco”. Mesmo assim, ela ajuda a pensar na pergunta por trás dela: a cor da pele pode influenciar o modo como uma pessoa é tratada? E, se isso acontece, como um cristão deve agir?
Quando alguém fala em privilégio branco, geralmente quer dizer que, em determinada sociedade, uma pessoa vista como branca pode encontrar menos obstáculos ligados à sua cor do que outra pessoa. Isso não significa que toda pessoa branca seja rica, tenha uma vida fácil ou nunca sofra injustiça. Também não significa que a cor da pele explique, sozinha, todas as diferenças entre as pessoas. Pra saber se uma desigualdade existe e quais são suas causas, é preciso olhar com cuidado pra realidade de cada lugar. A Bíblia não substitui essa investigação por uma resposta pronta.
Mas ela deixa claro como devemos tratar as pessoas. Ninguém vale mais diante de Deus por causa da aparência ou da origem. Ao falar da salvação, Paulo ensina que todos pecaram e que a aceitação diante de Deus vem por meio de Cristo, não da posição que alguém ocupa na sociedade (Romanos 3:23-24). Em Cristo, judeus e não judeus recebem a mesma promessa pela fé (Gálatas 3:26-29). Essas passagens não dizem que as diferenças sociais desaparecem automaticamente. Elas mostram que nenhuma dessas diferenças dá a alguém um valor maior diante de Deus.
Por isso, o cristão não deve tratar melhor uma pessoa por causa do grupo ao qual ela pertence. Tiago condena uma igreja que recebia com honra um homem rico, enquanto colocava um homem pobre num lugar inferior (Tiago 2:1-4). O exemplo é de riqueza, não de cor da pele, mas o ensino é claro: é errado dar mais importância a alguém por sua posição social. Se a cor da pele influencia quem recebe respeito, atenção ou oportunidades, esse tratamento também precisa ser confrontado.
Há uma diferença importante entre ter uma vantagem e agir injustamente. Uma pessoa não é culpada, simplesmente por nascer branca, por todos os atos de discriminação cometidos por outras pessoas. Por outro lado, não precisa ter praticado uma injustiça pessoalmente pra se importar com quem a sofre. Se percebe que é ouvida com mais facilidade ou tratada com mais confiança numa situação em que outros não são, pode usar essa posição pra ouvir, agir com justiça e não deixar a desigualdade passar despercebida.
A igreja do começo nos dá um exemplo útil. Em Atos 6:1-6, algumas viúvas estavam sendo deixadas de lado na distribuição diária de alimentos. Os apóstolos não ignoraram a reclamação: organizaram uma maneira de cuidar delas. O texto não trata do privilégio branco, mas mostra que uma comunidade cristã deve levar a sério uma queixa de tratamento desigual e procurar corrigi-lo.
A Bíblia também ensina que nossas vantagens não são motivo de orgulho. Paulo pergunta aos coríntios o que eles possuíam que não tivessem recebido (1 Coríntios 4:7). Isso não apaga o esforço de ninguém; apenas nos ajuda a reconhecer que ninguém escolhe a família em que nasce, as oportunidades que encontra ou a ajuda que recebe ao longo da vida. Quem tem recursos ou influência deve usá-los com generosidade, sem se colocar acima dos outros (1 Timóteo 6:17-19; Filipenses 2:3-4).
Então, a resposta bíblica não é dizer que toda pessoa branca é culpada, nem descartar toda conversa sobre desigualdade. É examinar os fatos com honestidade, recusar qualquer tratamento inferior por causa da cor da pele e perguntar: com aquilo que tenho e com a posição que ocupo, estou servindo às pessoas ou apenas cuidando de mim? Jesus ensinou seus seguidores a usar sua posição pra servir, não pra dominar (Mateus 20:25-28).