1 e 2 Macabeus são livros antigos que contam a resistência dos judeus contra um rei que tentou impedir a prática da fé judaica. Eles ajudam a entender o que aconteceu na Judeia entre os últimos acontecimentos narrados no Antigo Testamento e o tempo de Jesus. A principal dúvida sobre esses livros costuma ser outra: por que eles aparecem em algumas Bíblias, mas não em outras?
A história se passa no século II antes de Cristo. Naquela época, a Judeia estava sob o domínio de um reino governado por descendentes dos generais de Alexandre, o Grande. Um de seus reis, Antíoco IV, proibiu práticas importantes da religião judaica, como a observância do sábado e a circuncisão. Ele também mandou profanar o templo de Jerusalém.
Um sacerdote chamado Matatias se recusou a obedecer às ordens do rei. Ele e seus filhos iniciaram uma revolta, e Judas, um desses filhos, se tornou seu líder mais conhecido. Judas recebeu o apelido de Macabeu, nome que acabou sendo usado pra se referir à família e à revolta. Depois de várias batalhas, os judeus recuperaram Jerusalém, purificaram o templo e voltaram a usá-lo pra adorar a Deus. A festa judaica de Hanucá lembra a dedicação do templo após esses acontecimentos (1 Macabeus 4:36-59).
Os dois livros tratam dessa história, mas 2 Macabeus não é a continuação de 1 Macabeus. O primeiro acompanha a revolta por um período mais longo: começa com a perseguição de Antíoco e segue pelos governos de Judas e de seus irmãos Jônatas e Simão. O segundo volta a parte dos mesmos acontecimentos e lhes dá mais atenção do ponto de vista religioso. Ele foi composto em grego como um resumo de uma obra maior, escrita por Jasão de Cirene (2 Macabeus 2:19-32). Não sabemos quem escreveu 1 Macabeus nem quem fez esse resumo.
Também há uma diferença importante na maneira de contar. Em 1 Macabeus, as decisões dos líderes, as batalhas e as negociações recebem bastante atenção. Isso não quer dizer que Deus esteja ausente do livro: Judas, por exemplo, ora antes de uma batalha (1 Macabeus 4:30-33). Já 2 Macabeus fala de forma mais destacada sobre a ação de Deus, o sofrimento dos fiéis e a esperança da ressurreição. Essa esperança aparece de modo especialmente claro no relato de judeus que preferiram morrer a abandonar sua fé (2 Macabeus 7).
Quanto ao lugar desses livros na Bíblia, os cristãos não concordam. As Bíblias católicas incluem 1 e 2 Macabeus no Antigo Testamento e os chamam de livros *deuterocanônicos*. Igrejas ortodoxas também os recebem em suas Escrituras, embora seus cânones não sejam idênticos em todos os detalhes. Já as igrejas protestantes não os consideram parte da Bíblia; quando os publicam, geralmente os classificam entre os *apócrifos*. O judaísmo também não os inclui em suas Escrituras.
Essa diferença importa especialmente quando um desses livros é usado pra sustentar um ensinamento. Por exemplo, 2 Macabeus 12:38-45 relata uma oferta feita em favor de homens que haviam morrido. Católicos entendem que a passagem contribui para a defesa da oração pelos mortos. Protestantes não a aceitam como fundamento bíblico de doutrina, porque não reconhecem 2 Macabeus como Escritura. Assim, a divergência não está apenas em como interpretar o episódio, mas também na autoridade dada ao livro.
Mesmo pra quem não os considera parte da Bíblia, 1 e 2 Macabeus são fontes importantes pra conhecer aquele período. Eles mostram por que a liberdade de adorar a Deus e a preservação das práticas judaicas se tornaram questões tão decisivas. Lê-los ajuda a entender melhor o mundo judaico em que, mais tarde, Jesus viveu — sem confundir o valor histórico desses relatos com a questão, debatida entre cristãos, de sua autoridade como Escritura.