O Novo Testamento, como o conhecemos, foi escrito originalmente em grego. A ideia de que todos os seus livros foram escritos primeiro em aramaico é chamada de *primado aramaico*. Alguns defensores dessa ideia afirmam, mais especificamente, que a Peshitta — uma antiga versão da Bíblia em siríaco, uma forma de aramaico — preserva o texto original do Novo Testamento. As evidências disponíveis, porém, não sustentam essa conclusão.
A dúvida faz sentido porque Jesus e seus primeiros discípulos viviam numa região onde se falava aramaico. Os Evangelhos até conservaram algumas palavras nessa língua. Em Marcos 5:41, por exemplo, aparece a expressão aramaica que Jesus disse ao levantar uma menina, seguida de uma explicação do seu significado. Isso mostra que o aramaico fazia parte daquele mundo. Mas a língua em que Jesus falou uma frase não precisa ser a mesma em que o evangelista escreveu seu livro.
Os primeiros cristãos levaram a mensagem de Jesus a muitos lugares onde o grego era amplamente usado. As cartas de Paulo, por exemplo, foram enviadas a comunidades espalhadas pelo mundo romano. Os textos do Novo Testamento chegaram até nós em grego, e há fortes razões históricas e linguísticas pra entender que foram escritos nessa língua. A Peshitta é muito importante pra conhecer a história das igrejas de língua siríaca e pra estudar como elas liam a Bíblia. Isso, no entanto, não faz dela o original do qual o texto grego teria sido traduzido.
Há uma distinção importante aqui. É possível que os autores dos Evangelhos tenham usado lembranças, relatos falados ou materiais anteriores em aramaico ao escrever sobre Jesus. Também existe uma antiga tradição sobre Mateus ter reunido ensinamentos numa língua chamada “hebraica” por uma fonte da época; o sentido exato dessa notícia é discutido. Nenhuma dessas possibilidades demonstra que o Evangelho de Mateus que temos hoje — muito menos todo o Novo Testamento — tenha sido traduzido de um livro aramaico anterior.
Então, a resposta é: o aramaico está presente na história e em algumas palavras preservadas pelo Novo Testamento, mas o primado aramaico não explica melhor a origem dos livros que temos. A Peshitta é uma testemunha antiga e valiosa do texto bíblico em siríaco, não uma prova de que o Novo Testamento inteiro foi escrito primeiro nessa língua.