Não dá pra dizer que todos são charlatães, porque essa palavra sugere que a pessoa sabe que está enganando os outros. Não temos como conhecer a intenção de cada pregador. Alguns podem até acreditar sinceramente no que ensinam. Mas sinceridade não torna um ensino verdadeiro. Quando alguém promete que Deus dará riqueza e saúde a todo cristão que tiver fé ou fizer uma oferta, está ensinando algo que a Bíblia não promete.
Também é importante saber do que estamos falando. Pregar que Deus cuida das nossas necessidades não é pregar a chamada “teologia da prosperidade”. A Bíblia nos incentiva a pedir a Deus o pão de cada dia e a confiar no seu cuidado (Mateus 6:11, 25-33; Filipenses 4:19). O problema começa quando a fé é apresentada como uma maneira de garantir dinheiro, cura ou sucesso, e quando quem não recebe essas coisas é acusado de ter pouca fé.
De onde vem a confusão? No Antigo Testamento, Deus prometeu a Israel, como povo, bênçãos ligadas à terra e às colheitas quando obedecesse à aliança feita com ele (Deuteronômio 28:1-14). Essas promessas têm um contexto. Não podemos simplesmente transformá-las numa garantia de que todo cristão fiel ficará rico. No Novo Testamento, Jesus promete cuidar dos seus seguidores, mas também diz que segui-lo envolve renúncia e dificuldades (Lucas 9:23; João 16:33).
A vida dos apóstolos ajuda a entender isso. Paulo servia fielmente a Cristo e, ainda assim, passou necessidade em certas ocasiões (Filipenses 4:11-13). Ele não tratou a falta de dinheiro como prova de falta de fé. Pelo contrário, aprendeu a confiar em Cristo tanto na abundância quanto na necessidade. Por isso, é injusto dizer a uma pessoa doente ou pobre que sua situação só continua assim porque ela não creu o suficiente.
O mesmo cuidado vale pras ofertas. A Bíblia ensina a contribuir com generosidade, de boa vontade e sem pressão (2 Coríntios 9:7). Ela não ensina que dar dinheiro a um ministério obriga Deus a devolver uma quantia maior. Quando uma oferta é anunciada como um investimento de retorno garantido, a generosidade cristã é trocada por uma promessa que o pregador não tem autoridade pra fazer.
Então, como avaliar um pregador? Não basta ouvir uma frase isolada, nem concluir que alguém é falso mestre só porque fala das bênçãos de Deus ou vive com conforto. É preciso observar o que ele ensina de modo constante. Ele explica quem é Jesus, fala do pecado, do arrependimento e da salvação? Ou sua mensagem gira principalmente em torno de enriquecer, obter saúde e realizar desejos? Ele acolhe quem sofre ou culpa essa pessoa por não ter recebido o que prometeu?
A Bíblia alerta contra pessoas que tratam a religião como meio de ganhar dinheiro e lembra que o desejo de enriquecer pode afastar alguém da fé (1 Timóteo 6:5-10). Por isso, a mensagem que faz da riqueza e da saúde uma promessa garantida a todo cristão deve ser rejeitada. Quanto ao pregador, podemos avaliar seu ensino e suas práticas; não precisamos fingir que conhecemos seu coração. Ele pode ser um enganador consciente ou alguém sinceramente equivocado. Em qualquer caso, a solução é voltar ao que Jesus e os apóstolos ensinaram: Deus cuida de nós, mas seguir a Cristo não é uma fórmula pra ficar rico nem uma garantia de viver sem sofrimento.