A resposta depende do que se quer dizer com “apóstolo” e “profeta”. Se a ideia é que Deus esteja levantando pessoas com a mesma autoridade dos apóstolos que Cristo escolheu pra estabelecer a igreja, a Bíblia não nos dá motivo pra esperar isso. Já a pergunta sobre Deus ainda conceder mensagens proféticas à igreja é debatida entre cristãos que levam a Bíblia a sério. Em nenhum dos casos, porém, alguém pode exigir obediência sem permitir que seu ensino seja examinado pelas Escrituras.
Jesus escolheu os Doze para uma missão especial (Marcos 3:13-19). Depois da morte de Judas, Matias foi escolhido para ocupar seu lugar. Naquela ocasião, Pedro explicou que o substituto precisava ter acompanhado o ministério de Jesus e ser testemunha de sua ressurreição (Atos 1:21-26). Paulo também afirmou que recebeu seu chamado do próprio Cristo ressuscitado (Gálatas 1:1; 1 Coríntios 15:8-9). Não se tratava apenas de pessoas que pregavam bem ou fundavam igrejas: elas tinham um papel decisivo no começo da igreja. Efésios 2:20 descreve os apóstolos e profetas como parte do seu fundamento.
Ao mesmo tempo, o Novo Testamento usa a palavra “apóstolo” de maneira mais ampla em alguns lugares. Barnabé, por exemplo, recebe esse nome em Atos 14:14. Por isso, não basta dizer que a palavra aparece aplicada a outras pessoas para concluir que todas tinham a mesma autoridade dos Doze e de Paulo. Deus continua enviando pessoas pra anunciar o evangelho e servir à igreja. Isso não significa que elas ocupem hoje aquela função única de testemunhas escolhidas por Cristo no início da igreja.
E os profetas? Efésios 4:11-13 diz que Cristo deu apóstolos, profetas e outros servos pra ajudar a igreja a crescer. Alguns cristãos entendem que a profecia, assim como o papel fundador dos apóstolos, pertenceu especialmente ao período inicial da igreja. Outros entendem que Deus ainda pode conceder o dom de profecia, mas sem dar a essas mensagens a autoridade das Escrituras. Efésios 4 mostra que esses dons serviam à igreja; a passagem, sozinha, não resolve toda a discussão sobre como cada um deles atua hoje.
Há, contudo, uma regra clara que vale para qualquer posição: uma mensagem dita em nome de Deus não está acima de exame. Os cristãos de Bereia conferiram nas Escrituras o que Paulo ensinava, e foram elogiados por isso (Atos 17:10-11). Paulo chegou a dizer que até mesmo ele deveria ser rejeitado se anunciasse um evangelho diferente daquele que já havia pregado (Gálatas 1:8-9). A igreja também foi orientada a avaliar as profecias (1 Coríntios 14:29).
Portanto, é preciso ter cuidado com a afirmação de que Deus está “restaurando” apóstolos e profetas. Se ela significa que surgiram novos líderes com autoridade incontestável para falar por Deus, não há apoio bíblico pra isso. Se significa que Deus continua chamando pessoas pra anunciar o evangelho — ou, conforme entendem alguns cristãos, concedendo o dom de profecia —, essa é outra discussão. Seja qual for o título usado, ninguém pode substituir a autoridade das Escrituras nem deixar de ser examinado à luz delas.