Saul e Jônatas viam o mesmo Davi, mas reagiam a ele de maneiras opostas. Saul enxergava um rival que poderia tomar seu lugar. Jônatas enxergava um amigo e, com o tempo, reconheceu que Deus havia escolhido Davi para ser o próximo rei de Israel. A diferença fica ainda mais marcante porque Jônatas era filho de Saul e, normalmente, seria ele quem sucederia o pai no trono.
No começo, Saul não tratava Davi como inimigo. Depois da vitória de Davi sobre Golias, ele o manteve a seu serviço. Davi também teve sucesso nas missões que recebeu, e Saul chegou a colocá-lo à frente de soldados (1 Samuel 17:55–18:5). A mudança veio quando as vitórias de Davi despertaram a admiração do povo. Saul passou a comparar a fama do jovem com a sua e a temer que ele acabasse ficando com o reino. A partir daí, o medo virou hostilidade, e Saul tentou matá-lo (1 Samuel 18:6–12).
Esse medo não surgiu do nada. Deus já havia anunciado que o reino não permaneceria com Saul por causa da sua desobediência (1 Samuel 13:13–14; 15:26–28). Mais tarde, Samuel ungiu Davi por ordem de Deus (1 Samuel 16:1–13). Saul via Davi se destacar, mas, em vez de aceitar o que Deus estava fazendo, tentou eliminar aquele que considerava uma ameaça.
Jônatas tinha até mais motivos pessoais pra se sentir ameaçado: se Davi fosse rei, ele próprio não herdaria o trono. Mas sua reação foi outra. Logo depois da vitória sobre Golias, Jônatas se tornou amigo de Davi e fez com ele uma aliança de lealdade (1 Samuel 18:1–4). A Bíblia não diz tudo o que Jônatas compreendia naquele primeiro momento. Mais tarde, porém, ele afirmou claramente a Davi que este seria rei de Israel (1 Samuel 23:16–18).
A amizade deles não ficou só nas palavras. Quando Saul decidiu matar Davi, Jônatas falou ao pai em defesa do amigo e lembrou que Davi não havia feito nada contra ele (1 Samuel 19:1–7). Em outra ocasião, Jônatas procurou descobrir se Davi realmente corria perigo. Ao defendê-lo novamente, enfrentou a fúria do próprio pai (1 Samuel 20:24–34). Depois, quando Davi estava escondido, Jônatas foi até ele pra ajudá-lo a confiar em Deus (1 Samuel 23:15–18).
Isso não significa que Jônatas deixou de amar Saul. Ele continuou sendo seu filho e morreu ao lado dele numa batalha (1 Samuel 31:2). Mas não aceitou participar da perseguição injusta a Davi. Jônatas conseguiu ser leal ao pai sem chamar de certo aquilo que o pai fazia de errado.
No fim, a diferença entre Saul e Jônatas aparece na maneira como cada um lidou com a possibilidade de perder o trono. Saul se agarrou ao poder e passou a tratar Davi como inimigo. Jônatas abriu mão da expectativa de ser rei e permaneceu fiel ao amigo, mesmo sabendo que Davi ocuparia o lugar que poderia ter sido seu.