Levítico 12 estabelece dois prazos depois do parto. Se nascesse um menino, a mãe passaria por sete dias de impureza ritual e depois esperaria mais 33 dias antes de voltar a participar das atividades ligadas ao santuário. Se nascesse uma menina, os prazos seriam de 14 e 66 dias. Ao todo, eram 40 dias após o nascimento de um menino e 80 após o de uma menina (Levítico 12:2-5).
A Bíblia não explica por que o prazo era dobrado no caso de uma menina. Por isso, não dá pra afirmar com segurança a razão dessa diferença.
O primeiro cuidado é entender o que a lei queria dizer com “impura”. Ali, a palavra se refere a uma condição *ritual*: durante aquele período, a mãe não podia tocar em coisas sagradas nem ir ao santuário (Levítico 12:4). Não quer dizer que ela tivesse cometido um pecado ao dar à luz, que estivesse suja no sentido moral ou que sua filha valesse menos que um filho. Depois dos dias iniciais, ela ainda tinha restrições ligadas ao santuário, mas o texto não descreve todo o restante do prazo exatamente da mesma maneira.
Algumas explicações foram propostas. Uma delas diz que o prazo maior levaria em conta a mãe e a filha, já que a menina também poderia gerar filhos no futuro. Outra relaciona a diferença ao relato de Eva em Gênesis 3. Nenhuma dessas explicações, porém, é dada em Levítico 12. Também não há no capítulo uma indicação de que o parto de uma menina exigisse mais tempo de recuperação física. Podemos considerar essas ideias como possibilidades, mas não apresentá-las como o motivo que Deus revelou.
O próprio capítulo ajuda a evitar uma conclusão injusta: ao fim do prazo, a oferta pedida à mãe era a mesma, tivesse ela dado à luz um menino ou uma menina (Levítico 12:6-8). E a diferença de prazos não muda o que a Bíblia afirma desde o começo: homem e mulher foram criados à imagem de Deus (Gênesis 1:27).
Portanto, a resposta mais honesta é esta: a lei realmente estabelecia um prazo maior após o nascimento de uma menina, mas não nos diz por quê. O que ela nos permite entender é que se tratava de regras de pureza ritual para o acesso ao santuário, não de uma declaração de que meninas fossem inferiores ou de que suas mães tivessem pecado mais.