O perigo aparece quando a ideia de que “cada pessoa tem a sua verdade” deixa de falar de gostos e opiniões e passa a falar de Deus, do bem e do mal. Duas pessoas podem gostar de comidas diferentes, sem que nenhuma esteja errada. Mas, se duas afirmações dizem coisas opostas sobre Jesus, não basta chamar as duas de verdadeiras. Precisamos perguntar o que de fato aconteceu e o que ele ensinou.
Pós-modernismo é um nome usado para várias formas de pensar, não para uma crença única que todos aceitam. Algumas delas questionam se conseguimos conhecer a realidade sem sermos influenciados pela nossa cultura, pela linguagem e pelas nossas experiências. Essa pergunta pode ser útil: nós realmente podemos entender mal um texto e confundir nossos costumes com o ensino de Deus. O problema começa quando esse cuidado vira a conclusão de que não existe verdade que valha pra todos, ou de que ninguém pode conhecer nada verdadeiro sobre Deus.
A fé cristã não se apresenta como uma preferência pessoal. Jesus disse que veio dar testemunho da verdade (João 18:37). Sua morte e ressurreição também são apresentadas como acontecimentos reais, não apenas como ideias que fazem bem a quem acredita nelas. Paulo foi direto: se Cristo não ressuscitou, a fé cristã perde seu fundamento (1 Coríntios 15:14-19). Em outras palavras, o cristianismo pode ser examinado; ele não pede que a gente o considere verdadeiro só porque alguém se sente bem com ele.
Outro perigo é perder a disposição de distinguir o que um texto diz daquilo que gostaríamos que ele dissesse. É verdade que leitores podem discordar sobre uma passagem bíblica. Por isso, precisamos ler com atenção, considerar o contexto e estar dispostos a corrigir nossa interpretação. Mas a existência de interpretações diferentes não significa que todas correspondam igualmente ao texto. Quando alguém diz “a Bíblia significa pra mim...” sem se preocupar com o que o autor estava comunicando, pode acabar usando a Bíblia apenas pra confirmar o que já pensava.
Isso também afeta a maneira de olhar pras religiões. Respeitar pessoas de outras crenças é necessário; afirmar que todas as crenças ensinam a mesma coisa é diferente. Há diferenças reais entre elas. O Novo Testamento, por exemplo, ensina que Deus reconciliou as pessoas consigo por meio de Jesus e anuncia a todos o chamado ao arrependimento (João 14:6; Atos 17:30-31). Um cristão pode defender essa convicção sem tratar quem discorda com desprezo. A orientação bíblica é falar com gentileza e respeito (1 Pedro 3:15).
Existe ainda um cuidado importante pro próprio cristão: não confundir a verdade de Deus com a certeza de que *nós* entendemos tudo perfeitamente. A Bíblia pode ter autoridade sem que cada uma das nossas interpretações esteja correta. Reconhecer limites, ouvir perguntas sinceras e admitir um erro não enfraquece a fé. Ajuda a defendê-la com honestidade.
Então, o principal perigo não está em fazer perguntas difíceis nem em reconhecer que nossa visão pode ser limitada. Está em concluir, por causa disso, que a verdade sobre Deus não existe ou não importa. A resposta cristã não é parar de pensar nem impor crenças aos outros. É buscar entender bem as Escrituras, examinar as afirmações com cuidado e falar da esperança em Cristo com clareza e amor.