O Pastor de Hermas é um antigo livro cristão sobre arrependimento e vida com Deus. Muitos cristãos dos primeiros séculos o liam e o consideravam útil. Mas isso não quer dizer que ele devesse fazer parte da Bíblia. A distinção principal é esta: um livro pode ensinar coisas boas sem ser reconhecido como Escritura inspirada por Deus.
O livro provavelmente foi escrito no século II, depois da época dos apóstolos. Não sabemos com certeza quem foi seu autor. Um documento antigo diz que Hermas era irmão de Pio, um líder da igreja em Roma naquela época, mas não temos como confirmar todos os detalhes dessa informação.
A obra conta a história de Hermas por meio de visões. Nelas, uma mulher idosa e, mais tarde, um anjo que aparece como pastor lhe dão instruções. Daí vem o nome *Pastor de Hermas*. O livro insiste que as pessoas abandonem o pecado, se arrependam de verdade e vivam de modo obediente a Deus. Esse chamado ajuda a entender por que ele foi tão valorizado.
Então por que ele não entrou no Novo Testamento? Porque, ao reconhecer os livros do Novo Testamento, os cristãos davam especial importância ao testemunho dos apóstolos de Jesus e das pessoas ligadas a eles. A fé da igreja foi edificada sobre esse fundamento apostólico (Efésios 2:20). O *Pastor de Hermas*, por mais antigo e respeitado que seja, surgiu depois desse período. Ele não é um escrito de um apóstolo nem de alguém que registrou o testemunho apostólico como os autores dos livros do Novo Testamento.
É verdade que nem todos os primeiros cristãos falaram do livro da mesma maneira. Irineu, por exemplo, o citou com grande respeito. Por outro lado, um antigo documento conhecido como *Fragmento Muratoriano* recomenda sua leitura, mas diz que ele não deveria ser lido publicamente na igreja junto com os escritos dos profetas e dos apóstolos. O fato de o *Pastor de Hermas* aparecer em alguns manuscritos antigos ao lado de livros bíblicos mostra que ele era estimado; não prova, por si só, que fosse aceito como parte da Bíblia.
Também é importante não chamar o livro de “livro perdido da Bíblia”. Ele não se perdeu: pode ser lido até hoje. E não há motivo pra pensar que foi retirado de um Novo Testamento que antes o aceitava de maneira geral. O que houve foi uma discussão, entre os primeiros cristãos, sobre o valor e a autoridade de diferentes escritos.
Portanto, o *Pastor de Hermas* pode ajudar a conhecer as preocupações e os ensinamentos de cristãos antigos, especialmente sobre o arrependimento. Mas deve ser lido como um escrito cristão antigo, não como parte da Bíblia. Essa diferença nos permite reconhecer seu valor sem lhe dar a mesma autoridade dos escritos apostólicos.