A ligação mais importante entre a Páscoa e Jesus começa antes dos costumes do Seder. Começa na noite em que Deus libertou os israelitas da escravidão no Egito.
Naquela primeira Páscoa, cada família deveria preparar um cordeiro e colocar seu sangue na entrada da casa. Quando veio o juízo sobre o Egito, as casas marcadas pelo sangue foram poupadas (Êxodo 12:1-13). Séculos depois, João Batista chamou Jesus de Cordeiro de Deus, e o apóstolo Paulo disse que Cristo é o nosso cordeiro pascal (João 1:29; 1 Coríntios 5:7). A comparação é esta: assim como Deus salvou aquelas famílias no Egito, Jesus morreu pra nos salvar do pecado e do juízo de Deus. Na primeira Páscoa, os israelitas foram libertos da escravidão no Egito; por meio de Cristo, recebemos uma libertação ainda maior.
O Seder é a refeição judaica em que a família recorda a saída do Egito. A palavra significa “ordem”, porque a celebração segue uma sequência de alimentos, perguntas, explicações e orações. Seus elementos ajudam a contar a história da libertação. Mas é importante fazer uma distinção: a Bíblia estabelece a Páscoa; nem todos os detalhes do Seder praticado hoje aparecem na Bíblia ou podem ser atribuídos à refeição que Jesus celebrou com os discípulos.
Um dos elementos mais importantes é a matzá, o pão sem fermento. Israel saiu do Egito com tanta pressa que não houve tempo pra deixar a massa crescer. Por isso, o pão sem fermento passou a fazer parte da celebração (Êxodo 12:8, 34, 39). Na última refeição com seus discípulos, Jesus tomou o pão e o relacionou à entrega do seu corpo por eles (Lucas 22:19). O pão, então, nos ajuda a lembrar não só da saída do Egito, mas também de Jesus se entregando por nós.
Isso não quer dizer que cada característica da matzá tenha sido feita pra representar um detalhe da morte de Cristo. Alguns cristãos associam suas marcas e pequenos furos às feridas de Jesus. Essa comparação pode fazer alguém pensar em seu sofrimento, mas a Bíblia não ensina que o pão deveria ter essas características pra anunciar a crucificação.
O mesmo cuidado vale pro aficômen, um pedaço de matzá que, em muitos Seders, é separado, escondido e depois trazido de volta à mesa. Há cristãos que veem nisso uma lembrança da morte e da ressurreição de Jesus. É uma associação possível durante uma explicação cristã da Páscoa, mas não uma prova bíblica de que o costume foi criado com esse significado. Também não há base pra dizer que três pedaços de matzá usados em certas tradições representam necessariamente o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A verdade sobre Deus não depende dessa interpretação.
As ervas amargas, por sua vez, fazem parte das instruções da primeira Páscoa (Êxodo 12:8). Elas recordam a dureza da escravidão. Outros alimentos do Seder também ajudam a contar essa história: o vegetal mergulhado em água salgada costuma lembrar as lágrimas do povo; uma mistura doce chamada *charoset* costuma representar a argamassa usada nos trabalhos forçados. Esses significados pertencem à tradição da refeição. Eles nos ajudam a compreender aquilo de que Israel foi liberto, mas não precisamos atribuir a cada alimento um significado escondido sobre Jesus.
Na última refeição com os discípulos, Jesus também tomou o cálice e disse que seu sangue estava ligado à nova aliança (Lucas 22:20). Uma aliança é um compromisso estabelecido por Deus com seu povo. Os profetas já tinham anunciado uma nova aliança na qual Deus perdoaria os pecados (Jeremias 31:31-34). Jesus mostrou que sua morte estava ligada a essa promessa. Alguns relacionam o cálice mencionado por Jesus à terceira das quatro taças do Seder tradicional, mas os Evangelhos não identificam qual taça ele tomou. O ponto certo e importante é o significado que o próprio Jesus deu ao cálice.
Há ainda um detalhe da primeira Páscoa que o Evangelho de João destaca. A lei dizia que os ossos do cordeiro pascal não deveriam ser quebrados (Êxodo 12:46). João relata que os soldados não quebraram as pernas de Jesus quando ele estava na cruz e relaciona esse fato às Escrituras (João 19:33-36). Aqui não estamos apenas fazendo uma comparação entre símbolos: o próprio texto bíblico nos convida a enxergar essa ligação.
Então, como os elementos do Seder apontam pra Cristo? Eles nos levam de volta à Páscoa que Deus deu a Israel, especialmente ao cordeiro, ao pão sem fermento e à libertação do Egito. E o Novo Testamento mostra que Jesus deu a essa história um alcance maior: ele é o Cordeiro que se entregou por nós e, por meio de sua morte, Deus nos oferece perdão e uma nova vida. Podemos usar os costumes do Seder pra entender e lembrar essa ligação, desde que não tratemos interpretações sobre cada detalhe da refeição como se fossem ensinamentos claros da Bíblia.