A Bíblia fala bastante de Pedro, mas não menciona o cargo de papa nem ensina claramente que haveria um líder em Roma com autoridade sobre todos os cristãos. Essa é a resposta mais direta. Pra entender por que católicos e evangélicos chegam a conclusões diferentes, precisamos olhar com cuidado para o que Jesus disse a Pedro e para o que aconteceu depois, na igreja do Novo Testamento.
Pedro teve, sem dúvida, um papel importante. Em Mateus 16:16-19, depois que ele reconhece Jesus como o Cristo, Jesus lhe diz que edificará sua igreja e lhe dará as “chaves do reino”. No livro de Atos, vemos Pedro anunciando o evangelho publicamente em Jerusalém e participando de momentos decisivos da chegada da mensagem de Jesus a novos grupos de pessoas (Atos 2; 10). Seria um erro diminuir a importância dele.
A questão é outra: a autoridade dada a Pedro passou aos bispos de Roma, tornando-os líderes de toda a Igreja? A Igreja Católica entende que sim. Ela ensina que o papa, como sucessor de Pedro, exerce uma responsabilidade especial de cuidar da unidade e do ensino da Igreja. Também ensina que, em condições bem específicas, ele pode definir sem erro uma doutrina sobre fé ou moral. Isso não significa, segundo o próprio ensino católico, que o papa nunca peque ou que tudo o que ele diz seja infalível.
Do ponto de vista evangélico, o problema é que o Novo Testamento não estabelece essa passagem de autoridade de Pedro para uma sequência de bispos de Roma. Mateus 16 mostra a importância de Pedro, mas não fala de seus sucessores nem identifica o bispo de Roma como líder de toda a Igreja. Além disso, Jesus também fala aos outros discípulos sobre autoridade para “ligar” e “desligar” em Mateus 18:18. Portanto, não basta apontar para a autoridade de Pedro; é preciso demonstrar que ela pertenceria, depois dele, exclusivamente aos papas. A Bíblia não faz essa afirmação.
O restante do Novo Testamento também ajuda a entender o lugar de Pedro. Em Atos 15, quando os líderes da igreja se reúnem pra resolver uma discussão importante, Pedro fala, mas outros também participam da decisão. Em Gálatas 2:11-14, Paulo conta que confrontou Pedro publicamente porque sua conduta estava errada. E, ao orientar líderes cristãos, o próprio Pedro se apresenta como alguém que serve ao lado deles e os adverte a não dominar as pessoas confiadas aos seus cuidados (1 Pedro 5:1-3). Essas passagens não apagam a importância de Pedro, mas tampouco mostram um homem exercendo autoridade suprema sobre todos os apóstolos e igrejas.
Há ainda a questão de Roma. Uma antiga tradição cristã liga Pedro a essa cidade, e muitos cristãos aceitam que ele tenha estado ali. Mas o Novo Testamento não o chama de “primeiro papa” nem ensina que a posição de bispo de Roma herdaria sua autoridade. A referência à “Babilônia” em 1 Pedro 5:13 é entendida por muitos como uma referência a Roma; mesmo que seja, ela não estabelece o papado.
Isso não quer dizer que a Bíblia deixe a Igreja sem direção. Os apóstolos ensinaram que líderes deveriam preparar outras pessoas fiéis pra ensinar (2 Timóteo 2:2; Tito 1:5). Ao mesmo tempo, advertiram que até entre os líderes poderiam surgir ensinos falsos (Atos 20:28-32). Por isso, a continuidade de um cargo, por si só, não garante que tudo o que seu ocupante ensina esteja certo. Paulo chega a dizer que, mesmo se ele próprio anunciasse um evangelho diferente, esse ensino deveria ser rejeitado (Gálatas 1:8-9).
Assim, a resposta evangélica é: podemos reconhecer o papel especial de Pedro sem concluir que a Bíblia instituiu o papado. Cristo continua sendo o cabeça da Igreja (Efésios 1:22-23), e os cristãos devem examinar os ensinamentos recebidos à luz da mensagem apostólica registrada nas Escrituras (Atos 17:11; 2 Timóteo 3:16-17). A diferença aqui não precisa ser tratada como um julgamento do caráter de cada papa ou de cada católico. A pergunta principal é se a autoridade atribuída ao papa pode ser demonstrada pela Bíblia — e o Novo Testamento não a estabelece.