A ortodoxia radical é uma corrente de pensamento cristão que ganhou força nos anos 1990. Sua ideia principal é que não dá pra entender a vida como se Deus tivesse importância apenas dentro da igreja ou nas práticas religiosas. Pra seus autores, a fé cristã também tem algo a dizer sobre política, arte, educação, economia e sobre a maneira como convivemos.
O nome pode causar confusão. Nesse caso, “radical” não quer dizer extremista; indica uma tentativa de repensar questões desde suas raízes. E “ortodoxia” aponta pra sua ligação com crenças históricas do cristianismo. O movimento se inspira especialmente em Agostinho e em pensadores cristãos da Idade Média. Entre seus nomes mais conhecidos estão John Milbank, Catherine Pickstock e Graham Ward. Eles não concordam em tudo, por isso é melhor falar em uma corrente de pensamento do que em um conjunto fechado de doutrinas.
Uma das perguntas que essa corrente faz é: *por que tratar certos assuntos como se fossem completamente independentes de Deus?* Por exemplo, estudar economia é importante. Mas decidir o que é uma sociedade justa envolve também perguntas sobre o valor das pessoas, o uso do dinheiro e nossas responsabilidades uns com os outros. A ortodoxia radical argumenta que a teologia não deve ficar de fora dessas perguntas.
Há um ponto bíblico importante nisso. A Bíblia não apresenta Jesus como Senhor apenas dos cultos ou da vida particular de quem crê. Efésios 1:22 fala de sua autoridade sobre todas as coisas, e Colossenses 1:16-17 relaciona toda a criação a ele. Por isso, um cristão não deve abandonar sua fé quando sai da igreja e vai trabalhar, estudar ou participar da vida em sociedade.
Mas é preciso fazer uma distinção. Dizer que Deus se importa com toda a vida não significa que todas as atividades sejam iguais, nem que só cristãos possam produzir conhecimento verdadeiro. Também não significa que toda proposta filosófica da ortodoxia radical seja um ensino claro da Bíblia. Algumas de suas críticas à forma moderna de separar fé e vida são úteis; outras ideias exigem uma discussão mais cuidadosa.
Em resumo, a ortodoxia radical é uma tentativa de pensar toda a realidade à luz da fé cristã, em vez de reservar Deus a um pequeno espaço chamado “religião”. O convite que ela faz é importante: levar a sério o senhorio de Cristo em tudo o que fazemos. Ao mesmo tempo, cada argumento dessa corrente precisa ser avaliado por seus próprios fundamentos, sem ser aceito automaticamente só porque recebeu o nome de “ortodoxia”.