“Olho por olho” não era uma ordem pra pessoa se vingar de quem a machucou. Era uma regra dada aos juízes de Israel: a punição por um dano não podia ser maior que o dano causado. Quem julgava o caso precisava agir com justiça, sem deixar o culpado impune e sem castigá-lo além do que era devido.
A expressão aparece, por exemplo, em Êxodo 21:23-25, num trecho que trata de ferimentos causados a outras pessoas. Também aparece em Levítico 24:19-20 e Deuteronômio 19:21. Neste último caso, o assunto é uma falsa testemunha: os juízes deviam examinar a acusação e aplicar a pena correspondente ao mal que aquela pessoa tentou causar. Isso mostra que “olho por olho” pertencia ao julgamento de um caso, não a uma briga em que cada um decidia fazer justiça por conta própria.
Será que a regra exigia, em todos os casos, ferir o culpado exatamente da mesma maneira? O texto de Levítico usa uma linguagem que pode ser entendida assim, e a Bíblia não explica como cada caso desse tipo era resolvido. Por isso, não dá pra afirmar que a expressão sempre significava apenas uma indenização. Ao mesmo tempo, a própria Lei previa pagamento por certos ferimentos. Em Êxodo 21:18-19, por exemplo, quem feria outra pessoa devia compensá-la pelo tempo em que ela não pudesse trabalhar e cuidar da sua recuperação. O ponto seguro é que o julgamento precisava ser proporcional e justo.
Então por que Jesus falou sobre “olho por olho” e mandou oferecer a outra face? Em Mateus 5:38-42, ele tratou da reação de uma pessoa diante de uma ofensa. Jesus não estava ensinando que um juiz deve deixar de julgar crimes. Ele estava dizendo que não devemos usar uma regra de justiça como desculpa pra devolver uma ofensa com outra. Em vez de alimentar a vingança, seus seguidores devem estar dispostos a abrir mão de uma resposta agressiva, mesmo quando foram tratados injustamente.
Isso não significa que uma vítima precise aceitar violência contínua ou deixar de procurar proteção e justiça. Perdoar alguém não é dizer que o que ela fez foi certo. Uma pessoa pode renunciar à vingança pessoal e, ao mesmo tempo, denunciar um crime ou buscar ajuda. Romanos 12:19-21 orienta os cristãos a não se vingarem; logo depois, Romanos 13:1-4 fala da responsabilidade das autoridades de lidar com quem pratica o mal.
Em resumo, “olho por olho” limitava a punição pra que houvesse justiça. Jesus mostrou que essa regra nunca deveria virar uma licença pra vingança pessoal. O juiz deve julgar com justiça; quem foi ofendido não precisa devolver o mal que recebeu.