Jó disse isso logo depois de receber notícias terríveis: havia perdido seus bens, seus servos e seus filhos. Ele não estava tentando fingir que a dor era pequena. Jó rasgou suas roupas, rapou a cabeça e se prostrou em terra. Então reconheceu que tinha chegado ao mundo sem nada e que, ao morrer, não levaria nada consigo. Tudo o que havia recebido — inclusive a alegria de viver com seus filhos — era uma dádiva de Deus (Jó 1:20-21).
Por isso, quando disse que o Senhor deu e tirou, Jó estava afirmando que sua vida não tinha deixado de estar nas mãos de Deus, mesmo depois de perdas que ele não conseguia entender. Ele podia agradecer pelo que havia recebido e continuar se dirigindo a Deus no meio da tristeza. Adorar, naquele momento, não significava deixar de sofrer.
Mas a frase não quer dizer que Deus tenha praticado pessoalmente cada mal que atingiu Jó. O leitor sabe algo que Jó ainda não sabia: Satanás queria destruí-lo e pôs as tragédias em movimento. Também houve pessoas que atacaram seus servos e roubaram seus animais (Jó 1:6-19). Deus permitiu que aquilo acontecesse, mas o texto não apresenta a maldade dessas pessoas como algo bom, nem diz que Jó merecia sofrer.
Essa diferença importa quando alguém usa as palavras de Jó pra explicar uma perda atual. A frase nos ajuda a lembrar que Deus continua sendo Deus, mesmo quando a vida muda de maneira dolorosa. Ela não nos dá o direito de afirmar que sabemos por que uma pessoa perdeu um filho, ficou doente ou passou por outra tragédia. Jó também não sabia por que estava sofrendo. Mais tarde, reconheceu diante de Deus que havia falado de coisas que não compreendia (Jó 42:2-3).
O próprio livro mostra que é possível confiar em Deus e, ao mesmo tempo, chorar, fazer perguntas e dizer com sinceridade quanto a dor pesa. Jó fez tudo isso. Quando Jó 1:22 diz que ele não pecou ao falar depois das primeiras notícias, o texto não está exigindo que uma pessoa enlutada fique em silêncio ou pareça forte. Está mostrando que Jó não acusou Deus de ter agido com injustiça, apesar de não entender o que havia acontecido.
Pra quem crê em Cristo, há também a promessa de que Deus age para o bem daqueles que o amam (Romanos 8:28). Isso não significa que a perda seja boa em si, nem que sempre veremos nesta vida como Deus agiu. Significa que o sofrimento não está fora do alcance do seu cuidado.
Então, o sentido da frase de Jó é este: recebemos de Deus o que temos, mas não controlamos por quanto tempo vamos conservar essas dádivas. Quando elas nos são tiradas, podemos lamentar a perda de verdade e ainda recorrer a Deus. Foi isso que Jó fez.