Quando falamos em *testamento* no dia a dia, geralmente pensamos no documento em que alguém decide o que acontecerá com seus bens depois da morte. Na Bíblia, porém, a palavra costuma ter outro sentido: aliança. É um compromisso que estabelece uma relação entre pessoas — ou, no caso mais importante das Escrituras, entre Deus e seu povo.
É por isso que a Bíblia tem duas partes chamadas Antigo Testamento e Novo Testamento. Esses nomes apontam para a antiga e a nova aliança. Não querem dizer que cada parte seja um documento deixado por alguém antes de morrer.
Na antiga aliança, Deus escolheu Israel como seu povo e lhe deu suas leis. Isso aparece, por exemplo, no relato do monte Sinai (Êxodo 19:3-6; 24:3-8). Muitos anos depois, Deus prometeu, por meio do profeta Jeremias, uma nova aliança: ele perdoaria os pecados do seu povo e escreveria sua lei no coração deles (Jeremias 31:31-34).
O Novo Testamento mostra como essa promessa se cumpriu por meio de Jesus. Ao falar da própria morte, Jesus a relacionou com a nova aliança (Lucas 22:20). A carta aos Hebreus explica que ele ofereceu sua vida pelos pecados e abriu o caminho pra que as pessoas se aproximem de Deus (Hebreus 9:11-15). Assim, a diferença principal não é simplesmente entre duas coleções de livros: é entre a aliança feita com Israel nos dias de Moisés e a nova aliança estabelecida por meio de Cristo.
Existe também uma ligação com o sentido comum de *testamento*, aquele documento sobre uma herança. Paulo usa a figura de um acordo legal que, depois de confirmado, não pode ser alterado à vontade, pra explicar que a lei dada mais tarde não anulou a promessa que Deus havia feito a Abraão (Gálatas 3:15-17). Mas isso é uma comparação; não significa que a aliança com Abraão fosse literalmente um testamento de herança.
Portanto, ao encontrar a palavra *testamento* no nome das duas partes da Bíblia, pense primeiro em aliança. Esse é o sentido que ajuda a entender por que esses livros contam a história da relação de Deus com seu povo e de sua promessa cumprida em Jesus.