A Bíblia ensina duas coisas que precisam ficar juntas: devemos respeitar e obedecer às autoridades, mas nossa obediência a Deus vem em primeiro lugar. Isso significa que não podemos desprezar as leis só porque discordamos de um governante. Também significa que não devemos cumprir uma ordem que nos obrigue a desobedecer a Deus.
Paulo diz que as autoridades têm uma função importante: manter a ordem, punir o mal e favorecer o bem. Por isso, ele orienta os cristãos a respeitá-las e a pagar impostos (Romanos 13:1-7). Pedro dá uma orientação parecida (1 Pedro 2:13-17). Jesus também ensinou que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mateus 22:21). César era o imperador romano. Em outras palavras, existe uma responsabilidade diante do governo, mas existe também uma responsabilidade diante de Deus que o governo não pode tomar pra si.
Isso não quer dizer que toda decisão de um governante seja boa, nem que Deus aprove uma injustiça só porque ela foi praticada por uma autoridade. A própria Bíblia mostra governantes abusando do poder. Ela também cobra justiça de quem governa, especialmente na maneira de tratar os pobres e os mais vulneráveis (Provérbios 31:8-9; Isaías 10:1-2). E Pedro, ao falar do respeito às autoridades, lembra aos cristãos que devem honrar o rei, mas temer a Deus (1 Pedro 2:17). O rei não ocupa o lugar de Deus.
Então, como agir quando o governo faz algo errado? Nem toda injustiça nos autoriza a desobedecer a qualquer lei. Podemos buscar os meios legítimos pra contestar uma decisão, pedir justiça e defender outras pessoas. Paulo, por exemplo, recorreu aos seus direitos de cidadão quando foi tratado ilegalmente (Atos 16:37-39; 22:25-29). Respeitar as autoridades não exige ficar calado diante do abuso.
A situação muda quando uma ordem nos obriga diretamente a fazer o que Deus proíbe ou a deixar de fazer o que ele ordena. Os amigos de Daniel se recusaram a adorar a imagem erguida pelo rei, mesmo sob ameaça de morte (Daniel 3:16-18). Daniel continuou orando a Deus quando um decreto proibiu isso (Daniel 6:10). Mais tarde, os apóstolos receberam ordem de parar de anunciar Jesus e responderam que era necessário obedecer a Deus antes que aos homens (Atos 5:27-29). Eles não rejeitavam toda autoridade; recusavam aquela ordem específica porque ela contrariava sua fidelidade a Deus.
Há um detalhe importante nessas histórias: obedecer a Deus não garante que escaparemos das consequências. Os amigos de Daniel disseram que Deus podia livrá-los, mas deixaram claro que permaneceriam fiéis mesmo se isso não acontecesse (Daniel 3:17-18). A escolha certa não dependia da certeza de serem salvos do perigo.
Portanto, a orientação bíblica não é nem obedecer cegamente ao governo, nem tratá-lo como inimigo por princípio. O cristão deve cumprir suas responsabilidades, agir com respeito e buscar o bem das pessoas. Quando houver injustiça, pode procurar justiça. E, se uma autoridade exigir algo contrário à vontade de Deus, deve permanecer fiel a Deus, mesmo que isso tenha um custo.