Não. A Bíblia não diz que contar o erro de alguém é sempre certo ou sempre errado. O que importa é se estamos dizendo a verdade, por que estamos contando e o que precisamos fazer pra proteger as pessoas e agir com justiça.
Imagine que uma criança conta aos pais que o irmão pegou um biscoito escondido. Talvez ela queira apenas vê-lo levar uma bronca. Mas, se ela conta que o irmão está machucando alguém, o assunto é bem diferente. Ficar calado nesse caso pode deixar outra pessoa em perigo. A mesma palavra, “dedurar”, pode ser usada nas duas situações, mas elas não são moralmente iguais.
A Bíblia mostra que passar uma informação a quem pode agir às vezes é a coisa certa. Mardoqueu soube de um plano pra matar o rei e avisou as autoridades; a conspiração foi investigada e impedida (Ester 2:21–23). Proteger alguém de um mal grave não é traição. Provérbios 31:8–9 também nos chama a defender quem precisa de ajuda.
Por outro lado, nem toda denúncia nasce do desejo de fazer o bem. Pessoas informaram ao rei Saul onde Davi estava escondido, ajudando Saul a persegui-lo injustamente (1 Samuel 23:19–20; 26:1). Doegue contou a Saul que o sacerdote Aimeleque havia ajudado Davi, e Saul usou essa informação pra ordenar uma matança (1 Samuel 22:9–19). Isso mostra que dizer algo verdadeiro não basta pra tornar nossa atitude justa. Precisamos considerar o motivo e o uso que será feito da informação.
Também não devemos espalhar o erro de alguém só pra humilhá-lo ou criar conversa. Se o problema pode ser resolvido diretamente e sem colocar ninguém em risco, conversar primeiro com a pessoa costuma ser o caminho mais cuidadoso. Jesus ensinou seus seguidores a tratar uma ofensa pessoal, inicialmente, numa conversa particular (Mateus 18:15). E Gálatas 6:1 orienta a procurar a recuperação de quem errou com mansidão, não com prazer em vê-lo castigado.
Mas essa conversa particular não é uma exigência antes de pedir ajuda diante de violência, abuso, ameaça ou outro perigo. Nesses casos, é certo procurar alguém capaz de proteger a vítima e tomar as medidas necessárias. A lealdade a um amigo ou familiar não exige encobrir o mal que ele está fazendo. Ao falar, devemos contar o que sabemos com honestidade, sem inventar, exagerar ou tratar suspeitas como fatos (Êxodo 20:16; Efésios 4:25).
Então, antes de contar algo, vale pensar: *Estou tentando proteger alguém, impedir um mal ou buscar uma solução justa? Estou falando com a pessoa certa? Sei que isso aconteceu ou estou repetindo um boato?* Essas perguntas ajudam a distinguir uma denúncia responsável de uma fofoca ou de uma tentativa de prejudicar alguém.
Ser chamado de “delator” não prova que você agiu mal. E dizer a verdade não dispensa você de agir com cuidado e misericórdia. O caminho bíblico é não encobrir aquilo que põe pessoas em perigo, nem usar o erro dos outros como arma.