A Bíblia não dá a ninguém o direito de agredir, ameaçar, humilhar ou forçar uma mulher a ter relações sexuais. Isso vale também dentro do casamento. O fato de a Bíblia contar histórias em que mulheres sofreram violência não significa que ela aprove o que aconteceu. Muitas dessas histórias mostram justamente o mal que as pessoas são capazes de fazer.
Desde o começo, a Bíblia apresenta a mulher e o homem como pessoas criadas à imagem de Deus (Gênesis 1:27). Por isso, o valor de uma mulher não depende de ser esposa, mãe ou de estar sob a proteção de um homem. Ela deve ser tratada com dignidade porque é uma pessoa diante de Deus.
É importante lembrar disso ao ler os relatos bíblicos. Tamar, filha de Davi, foi violentada pelo próprio meio-irmão, Amnom. Ela resistiu e deixou claro que aquilo era errado. Depois, ainda sofreu com o desprezo dele (2 Samuel 13:1–20). O texto não pede que o leitor desculpe Amnom; ele mostra a crueldade do que Tamar sofreu. Em Juízes 19, a violência cometida contra uma mulher faz parte de um relato sobre como o povo havia se afastado de Deus. A Bíblia registra esses acontecimentos, mas contar que algo aconteceu não é mandar que alguém faça o mesmo.
Deus também ordenou que seu povo defendesse quem estava mais sujeito a ser maltratado. As viúvas, por exemplo, aparecem repetidas vezes entre as pessoas que não deveriam ser oprimidas e às quais se devia fazer justiça (Êxodo 22:22–24; Isaías 1:17). E o Salmo 11:5 mostra a rejeição de Deus à violência.
No Novo Testamento, as orientações dadas aos maridos vão na direção contrária ao abuso. Paulo manda que amem suas esposas e não as tratem com dureza (Colossenses 3:19). Em Efésios 5:25–29, ele aponta o cuidado de Cristo pela igreja como exemplo de amor pro marido. Pedro diz que os maridos devem tratar as esposas com respeito e lembra que elas também recebem a vida que Deus dá (1 Pedro 3:7). Nenhuma dessas passagens permite usar a força, o medo ou a fé pra controlar uma mulher. E nenhuma orientação bíblica sobre o casamento deve ser usada pra exigir que ela aceite agressões.
Jesus também tratou mulheres com atenção e dignidade numa época em que muitas eram desconsideradas. Ele conversou com elas, as ensinou, e mulheres participaram de seu ministério (Lucas 8:1–3; João 4:7–26; Lucas 10:38–42). Seu exemplo não combina com a ideia de que uma mulher tenha menos valor ou de que seu sofrimento possa ser ignorado.
Se a pergunta vem de uma situação real, há algo que precisa ser dito com clareza: a mulher que sofre violência não é culpada pela escolha do agressor, e buscar proteção não é falta de fé. Ela não precisa permanecer em perigo pra demonstrar perdão ou preservar a aparência de um casamento. Procurar um lugar seguro, contar a pessoas de confiança e buscar as autoridades e os serviços de proteção são medidas importantes. A igreja deve ajudar a proteger quem sofre, não pressioná-la a voltar pra situação de violência nem encobrir o agressor. Fazer justiça e cuidar de quem está vulnerável também fazem parte daquilo que Deus pede ao seu povo.